28 de janeiro, 2005
EPÍ(B)LOGO
O Patas ontem fez um ano. Esperou um dia e, hoje, assinala outra data: o dia em que as Patas já não moram aqui. A ideia da Esquerda e da Direita, há muito que se esgotou.
Obrigada a todas as patas que por aqui chafurdaram
Até breve,
PATA DIREITA (F**)
23 de janeiro, 2005
AVISOS A MIM MESMA
#1 Já não tens febre
#2 A tosse está a ficar farta de ti (como estás tu dela)
#3 Amanhã, em princípio, podes sair à rua sem contagiar ninguém
#4 Não, nenhum camião passou por cima de ti nos últimos dias
#5 Foste apenas mais um número na estatística de um surto
#6 Não faças essa cara, podia ser pior
#7 Ok, foi do pior
#8 Isto de escrever coisas a ti própria, através de avisos a mim mesma
#9 Talvez ficaste "afectada" (ver #8)
#10 Estás 2 minutos atrasada para o cocktail de comprimidos
PATA DIREITA
22 de janeiro, 2005
DESMEMBRAR UMA FLOR; MA-GNO-LIA-A (OU COMO ESTA GRIPE COLOCA UM CÉREBRO EM PAPA)
cortar
o passado
Connosco
Passado
Corte
Nós
Passado
Connosco
connosco
o passado
“Nós podemos cortar com o passado mas o passado não corta connosco.”
PATA DIREITA
18 de janeiro, 2005
… E A NOSSA HISTÓRIA ACABA AQUI?
As histórias da vida, enquanto houver vida, não têm ponto final
PATA DIREITA
15 de janeiro, 2005
FRASE CONSTRUÍDA A CUSTO (SEM A PALAVRA ALMOFADA)
Lembro-me de uma coisa pior do que acordar num Sábado de manhã; acordar num Sábado de manhã para ir trabalhar.
PATA DIREITA
10 de janeiro, 2005
A VIDA COMO UMA BALANÇA DE PERNAS PARA O AR
“As pessoas equilibradas são assim, têm o costume de simplificar tudo, e depois, mas sempre tarde de mais, é que as vemos assombrarem-se com a copiosa diversidade da vida ( … )”
José Saramago, in O Homem Duplicado
PATA DIREITA
5 de janeiro, 2005
DIÁLOGO (DES)VENDADO
Para o meu amigo que tem a malandragem no sangue
- Não queres mais um Martini?
- Dá tempo. Continua.
- É isso; acho que não gosto dela…
- Achas…
- Não encaixa.
- …
- Não percebo, melhor, percebo-a ao ponto de perceber que nela não há nada para perceber. Percebes?
- Talvez porque foi fácil acontecer alguma coisa…
- Sim.
- Isso é mau?
- Não.
- …
- Percebes?
- Talvez se me deres um exemplo.
- Olha, porque é que depois de beber o Martini trincaste o limão?
- Hum?!?
- Sim, porquê?
- Porque gosto de coisas ácidas. Gosto do sabor do limão.
- No outro dia ela bebeu uma coca-cola e fiz a mesma pergunta. Ela respondeu-me que nos bares reutilizam as rodelas de limão e que pelo menos aquela rodela já não ia para o copo de mais ninguém. Percebes?
- Talvez está na hora de aceitar outro Martini.
PATA DIREITA
2 de janeiro, 2005
TELEGRAMA PARA 2005
Este ano não faço resoluções.
P.S - E isto não é uma resolução.
PATA DIREITA
17 de dezembro, 2004
SAC - SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO CONSUMIDOR
Empresa: Phillips
Olá, comprei um Philishave Micro Action Dupla Acção HQ 342 há algumas semanas e por necessidade resolvi usá-lo na região do saco escrotal, mas não obtive muito sucesso. Além da forte dor, notei pequenos cortes. Como não fui feliz em minha tentativa e tenho certeza que várias outras pessoas também passam por necessidades pessoais como essa, gostaria de deixar a minha sugestão para elaborarem um produto específico para esse fim.
Se possível, para a região anal também. Desde já agradeço e aguardo retorno.
Gilbert.
Prezado Sr. Gilbert,
Com referência à solicitação feita, informamos que este aparelho trabalha com lâminas que cortam bem rente a pele, neste caso, o saco escrotal possui uma pele bem fina e sensível, além de ser bem enrugado também, e por este motivo o senhor sentiu dor, e teve pequenos cortes. Pedimos encarecidamente para o senhor não tentar barbear o seu ânus com o aparelho pois os resultados podem ser desastrosos.
Contamos com sua compreensão.
Atenciosamente,
Vinicius Decia
CIC - Centro de Informações ao Consumidor Philips e Walita
0800-701-0203 - E-mail: cic@philips.com.br
P.S - “Não preciso de inventar nada. A Realidade é bem pior.” — Thomas Bernhard.
PATA DIREITA
16 de novembro, 2004
SERÁ UM REFLEXO DE PAVLOV?
Porque é que as pessoas quando dizem “meu Deus” esticam os braços para o firmamento?
O omnipotente…
Todo-poderoso…
Logo; em todo o lado!
A invocação de Deus deveria sofrer evolução, por exemplo:
- gritar “meu Deus” em posição Cristo Rei
(aquela que o DiCaprio ensina à ruiva no Titanic)
…pelo menos o pessoal aprendia a voar enquanto espera.
PATA DIREITA
8 de novembro, 2004
CONGELAR AS LÁGRIMAS
"Bed Pictures", Miss Gaido Allen
Gosto de te ver dormir, entesourado de barriga para baixo imprimindo uma cova de linho nos lençóis, porque fico a sorrir para um sorriso metade nos lábios metade amachucado na almofada. Além disso não ressonas. Por isso encolho-me sentada e agarro os joelhos no meu lado da cama; só transposto por uma das tuas pernas enquanto a outra apanha ar fora do colchão. Não sei se sabes, mas ficas sempre tatuado por um cabelo meu, e, quando respiras, esvoaça o fio preto que volta a aterrar entre a tua pálpebra e a vírgula cicatrizada que tens no queixo. Certifico-me sempre que tenho o teu cheiro a sono ao escorregar cinco dedos pela cara. Não sei porquê, mas agora consigo realmente acreditar que existe a tal cúpula envidraçada e guardada a arco e flecha por Artémis, como escrevinhaste em poema, nas costas da conta dos pastéis de Belém onde lanchámos esta tarde. Estavas também despenteado, logo não foi por isso que nos vi sob vidro rachado entre estilhaços e uma seta no chão. Assim saio de mansinho às escondidas de Morfeu enquanto dormes e sonhas porque, de certeza, nos teus sonhos amanhã eu não fui embora.
14 de outubro, 2004
JOÃO, FERNANDO E EU (QUE METI-ME A MEIO DESTA HISTÓRIA)
Apanhei o metro até à Baixa. Mais minuto, menos minuto, cheguei atrasada. (Não vale a pena fazeres essa cara; de quando em vez uma gaja atrasa-se! E tu também.) Pedi desculpa mas ele nem me ligou. (Sabes como o Fernando é.) Fiz caretas. Fiz-lhe cócegas. Fiz-me estátua como ele e nada; não se riu. Não me ri. Riram-se pessoas que por ali passavam.
Falei-lhe de ti; de como gostas dele e de um outro Fernando – que por sua vez partilha o teu gosto por ele, e por isso, tinha-o como parte de uma música.” Moonspell?”, indagou baixinho, sem endireitar nem bigode, nem o chapéu.
Convenci-o a ouvir-me com a bica que finalmente (!) chegou, embora a cada gole, franzia o sobrolho como se o café ao longo dos anos tivesse sofrido milagre ao contrário: vinho em água. “Isto sequer tem cafeína?”, perguntou ele. “Ora ainda bem que falas nisso”, respondi eu. “Não me digas que esperas que te arranje grãos de café, para ofereceres ao teu amigo Fernando…” “João”, emendei eu. “O meu amigo chama-se João, Fernando. Quem se chama também Fernando é o da banda.” “Hmmm”, murmurou ele, como quem acorda de um sono carregado em anos e anos, mas lá continuei:”Quero outra substância.” “Que outra cousa queres dentro da chávena, rapariga?”, perguntou ele. “Quero a tua substância numa folha de papel…”, disse-lhe, sem medo de parecer ridícula porque falava com quem escreveu que Todas as palavras esdrúxulas / Como os sentimentos esdrúxulos / São naturalmente / Ridículas.
“Estou enferrujado”, disse ele, e olhei-o de cima a baixo e por isso respondi: “Olha que não, continuas a pessoa do grande Pessoa.” Riu-se e partilhei um guardanapo com ele, ambos de caneta na mão. “Vamos escrever qualquer cousa? Os meus dedos já estão com fome.”
Fingi não ver que esquecia a dedicatória a Mário de Sá Carneiro. Colocava o teu nome, João. No poema que pensei. E que foi ele quem escreveu.
Teria corado quando lhe pisquei o olho, se não estivesse de novo feito estátua. Apanhei o metro de volta a casa e mais minuto, menos minuto, não chego atrasada. Nem os Meus Parabéns, todos Teus, assinados por Ele.
(Os beijinhos são só meus. O Fernando manda um abraço.)
Ao João Drumond, amigo da rapariga que há mais de meia hora, tapa-me a vista sobre a Baixa
É antes do ópio que a minh' alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.
(…)
Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.
(…)
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), Opiário
PARABÉNS, gajo! ;)
PATA DIREITA
11 de outubro, 2004
PORQUE O LIVRO CAÍU E ABRIU-SE NA PÁGINA ONDE ESTA FRASE ESTÁ SUBLINHADA…*
Então, perguntou a Franz: «E porque é que de tempos a tempos não te serves da tua força contra mim?
- Porque amar é renunciar à força», disse Franz, com doçura.
Sabina percebeu duas coisas: primeiro, que aquela frase era bela e verdadeira; segundo, que, com aquela frase, Franz acabara de se desvalorizar para sempre na sua vida erótica.
Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser
*…e porque eu sempre gostei da Sabina.
PATA DIREITA
6 de outubro, 2004
BIG GIRL
Caso: verídico
Personagens: Dois homens e uma miúda
Cenário: Esplanada do café
Homem nº1: “Agora vais para o pé do teu pai, não é?”
Miúda: “Deixa-me...”
Homem nº2: “Deixa a miúda em paz.”
Homem nº1: “Foi ela que começou. Anda por aqui mais de meia hora a atazanar.”
Homem nº2: “Pois, mas a minha filha tem cinco anos e tu quantos tens?”
Homem nº1: “Olha e eu tenho quatro.”
Miúda: “Mentiroso. Deves ter mais de cem.”
PATA DIREITA
4 de outubro, 2004
WATER BOY
"Água", Maria Pérez Cárceres
Dizes-me que a água não tem sabor e sabe-me a água.
(Fecha os olhos.
Já está.
Prova.
Sabe-me a água.)
Diz-me porque é insípida…
(Sem sabor; salgada no mar, ou coloca gotas de limão e aí é ácida. Ao paladar não é doce nem amarga. Percebes?
Sim. Porque sabe a água.
…)
Quando chegar aí, diz-me a que te sabe a água. Agora é a tua vez. E podes fechar os olhos, como eu.
PATA DIREITA
1 de outubro, 2004
A MELHOR MÚSICA DO VERÃO 2004 SEGUNDO AS EXCELENTÍSSIMAS PATAS APÓS NOITADAS DE PESQUISA
Da Weasel, Retratamento
Vou levar-te para casa – tomar conta de ti
Dar-te um bom banho, vestir-te um pijama e…
Fazer-te uma papinha, meter-te na caminha
Ler-te uma historinha e deixar-te bem calminha
Ouve bem: Preciso de alguém do meu lado
Que me dê um bom dia com um sorriso bem rasgado
Amor pela manhã, pela tarde e pelo fim do dia
Mais um pouco quando sonho era o que eu queria
Não é preciso muito, é muito simples na verdade
Só quero amor bom, carinho, solidariedade
Faz-me rir e eu prometo que não te faço chorar
Trata bem de mim e eu bem de ti vou tratar
Olá nina, quero tratar de ti
Dar-te este mundo e o outro tenho tudo aqui
Chega só um pouco perto de mim
Acredita que nunca me senti assim
Trata-me bem – eu juro que suo sangue por ti
Faz a coisa certa como o Spike Lee
Podes usar e abusar tipo brinquedo favorito
Mas tem cuidado, por favor, não o deixes partido…
Dou-te tudo o que puder, tudo o que tiver
O que não tiver tiro aos deuses para a minha mulher!
Roubamos um foguete, vamos dar uma volta até à Lua
Escrevo um livro pelo caminho com a alma toda nua
Procriamos como coelhos e quando nos derem pelos joelhos
Procriamos mais um pouco porque eu adoro fedelhos
Escrevo o teu nome no meu corpo para toda a gente ver
Bem piroso e lamechas, como o amor deve ser…verdadeiro!!!
Olá nina, quero tratar de ti
Dar-te um mundo e o outro tenho tudo aqui
Chega só um pouco perto de mim
Acredita que nunca me senti assim
Gostas de filmes? Podíamos fazer um bem privado…
Eu escrevo, realizo e actuo do teu lado
Podes ser a minha estrela, vou-te dar um bom papel
Pouca palavra, muita acção, acredita que é mel
Nasceste para isto, tá tudo previsto
Por isso insisto e não resisto a dar-te mais um pouco disto
Amor puro, fresco como a brisa do mar
Tenho montes dele guardado, e tá quase a estragar
Envelheço ao teu lado, eu bem gordo tu bem magra
Acabamos com o stock nacional de Viagra
Faz-me rir e eu prometo que não te faço chorar
Trata bem de mim e eu bem de ti vou tratar
Olá nina, chega (aqui) ao pé de mim
Deixa-me dar-te o que tu mereces
Tu és a resposta para as minhas preces
Senta-te aqui vou-te cantar um som
Doce como tu, como um bombom
Olá, nina quero tratar de ti
Dar-te um mundo e o outro tenho tudo aqui
Chega só um pouco perto de mim
Acredita que nunca me senti assim
MÚSICA:
João A. Nobre
LETRA:
Carlos Pac Nobre
P.S – Agora vão mas é ouvir (outra vez) e depois sempre podem dizer que avisámos.
PATA DIREITA
23 de setembro, 2004
VERÃO AZUL!!
Pois é, ah pois é! O Verão foi a enterrar ontem, precisamente às quinze horas e trinta minutos. Mas no entanto tendo em conta a noite/madrugada de hoje, poderíamos estar a viver qualquer noite tórrida de Agosto.
Bem-vindo sejas Outono e muito obrigada por não te fazeres sentir, as castanhas e todo restante magusto fazem muito bem em tardar, porque falando por mim a transição tem de ser lenta, não se pode fazer sentir, simplesmente porque não há como uma noite de Verão…
I do believe you know what I mean :)!!
PATA ESQUERDA
19 de setembro, 2004
FRASE DESTRUÍDA NO INCÓGNITO ÀS TANTAS DA MADRUGADA
Um rapaz fala com uma rapariga enquanto aponta o copo para outra.
- Com ela é diferente, porque é amiga de um dos meus namorados.
- … (?!?)
- Não é isto… Pá… Tu percebeste, não percebeste?
(Podia ajudar na construção da frase: “Com ela é diferente porque é namorada de um dos meus amigos”…. Mas não, vou fingir que não percebi. Senão amanhã não tenho nada para colocar no blog.)
PATA DIREITA
15 de setembro, 2004
A CULPA NÃO É TUA, É O TEU OLHO QUE QUER CHORAR
"Eye #1", Yoko Yamamoto
- Ainda sonhas acordado?
- …
- Eu sim, há esperança.
- Esperança para quê?
- Não para quê… Em mim.
PATA DIREITA
13 de setembro, 2004
O MUNDO NÃO É UM LUGAR ESTRANHO, NÓS É QUE O ESTRANHAMOS
"O mundo é atravessado por anjos honestos e desonestos; por vezes parece até que os edifícios são seres urbanos móveis e com vontade concreta. Um edifício caíu."
Gonçalo M. Tavares, in A máquina de Joseph Walser
PATA DIREITA
10 de setembro, 2004
RETALHOS DA PARTIDA
20:43
Confirmo que trouxe o BI e que o comboio saiu de Santa Apolónia right on time (18:01)
e passou Coimbra às 20:25
e agora pára
- Pampilosa.
Não confirmo que o rapaz connosco na cabine seja mudo. Mas ele nem a mim, nem ao João disse um “ai”.
P.S – Van Gogh, Matisse, Hemingway, Chatwin, Luís Sepúlveda, Eu, adquiriram um Moleskine. Outros anónimos também, possivelmente.
20:45
Confirmo ainda que prosseguimos viagem.
O corpo da cabine é o mesmo mas agora somos oito corações a bater cá dentro.
Não tenho pachorra de ver que horas são
Consigo ler a placa
- Ciudad Rodrigo
na estação, antes de fechar os olhos com a certeza de quando os abrir, já não estou aqui.
Terras nacionais, 10 de Agosto de 2004
PATA DIREITA
18 de agosto, 2004
PERDIDOS E ACHADOS
Isle of Skye - Kyle of Lochalsh - Perth - Stirling
Perdi os meus oculos de sol nao sei onde.
O Joao perdeu o tenis direito
(o esquerdo continua agarrado a sua mochila)
e o seu pe esquerdo (tenis) e capaz de voltar a Portugal porque ele disse-me ser incapaz de o deitar fora.
(Nada foi encontrado ate agora.)
O Joao so tem as chinelas de praia para caminhar. Disse-lhe que provavelmente enganou-se na viagem: devia de querer ir para as Bahamas porque na Escocia CHOVE.
O meu amigo tambem resolveu nao ligar quando lembrei
- Leva o impermeavel
la por ser Agosto, nao impede que de quando em vez o meu companheiro de viagem vire gato pingado.
P.S - O Joao escalou o monte Storr (Isle of Skye) com chinelas de praia. E acreditem, e uma GRANDE caminhada
a SUBIR por onde calha meter a PATA
com 98% de probabilidade de ser na LAMA.
P.P.S - Tenho saudades dos acentos num teclado.
Stirling
PATA DIREITA
15 de agosto, 2004
INTER RAIL
Lisboa - Hendaya - Paris - Hazebrouck - Calais - Dover - Londres - Edimburgo - Inverness (LochNess) - Kyle of Lochalsh - Isle of Skye
Incrivel. Estar nesta ilha escocesa e i n d e s c r i t i v e l. Acredito em paraisos. Agora, sim.
Hoje vi um espelho, nao de vidro. De agua. Um autentico espelho em forma de lago. Com uma montanha que parecia viva de tanta presenca e uma nuvem gigante, demasiado branca. Demasiado brutal. Demasiado. Sem palavras porque coisas assim ainda nao existem em dicionarios. E ainda bem. A essencia nao se toca, toca-nos. E isso e uma grande diferenca.
A Escocia espeta-me o dedo.
Isle of Skye
P.S - Quanto aos acentos o teclado fez de proposito e escondeu-os de mim.
PATA DIREITA
7 de agosto, 2004
E A ACRESCENTAR O SENTIDO DO SENTIMENTO
Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?
David Mourão-Ferreira
PATA DIREITA
4 de agosto, 2004
NÃO É NOVO MAS É ACTUAL
Não, não é somente por andar com a cabeça no interail que me lembrei de Amesterdão
(para mim; "City Out Of The Blue")
O que faz lembrar que só faltam 6 dias. Mas, de certeza que não foi por isso que me lembrei desta cidade. Porque isto realmente faz lembrar disto. Acho natural... O Ben diz que é;
"Herb the gift from the earth,
And what's from the earth is of the greatest worth.
So before you knock it try it first,
Oh, you'll see it's a blessing and not a curse.
If you don't like my fire, then don't come around,
'cause I'm gonna burn one down.
Yes, I'm gonna burn one, oohhh."
PATA DIREITA
1 de agosto, 2004
FEZ-SE O DESEJO DE UMA MOEDA E SEI QUE ATIREI DUAS E DE COSTAS VOLTADAS E A RIR NA FONTANA DI TREVI
Cara Europa
Agarro-te pela mão
e tens forma de um rectângulo
um bilhete que não te escrevo por estar já escrito:
I
N
T
E
RAIL
Aguarda-me à solta depois de
soltar-me soltar-te saltar-te
em cima
Sou o comboio a te trespassar
mais uma vez
outra vez
Até o nosso reencontro sem túlipa a marcar um livro
mas a levar a forma que me imprimiste
da outra vez
mais uma vez
quem ficou na palma da tua mão.
Parto dia dez.
PATA DIREITA
24 de julho, 2004
FRASE ENCONTRADA NO INTERIOR DO MEU GUARDA-FATO
“Se Deus quisesse que o homem voasse, tinha-nos dado bilhetes de avião.”
[Woody Allen, escritor e cineasta]
PATA DIREITA
17 de julho, 2004
NÃO SEI PORQUÊ MAS UMA VONTADE
Hold on to the thread
The currents will shift
Glide me towards...
You know something's left
And we're all allowed
To dream of the next
Oh, ohh the next, time we touch...
You don't have to stray
The oceans away
Waves roll in my thoughts
Hold tight the ring...
The sea will rise...
Please stand by the shore...
Oh, oh, I will be...
I will be there once more...
Vedder, Ament, Gossard;Oceans
Não sei porquê mas uma vontade de ir até o mar. Apenas sei de alguém com a vontade:
Música, levai-me:
Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?
Eugénio de Andrade
PATA DIREITA
8 de julho, 2004
POMBO SOLTO NA RUA
Em plena Marginal, o apito de um sms fez-me estender o braço para alcançar o telemóvel na balbúrdia da bolsa:
“Então miúda, nunca mais disseste nada. Tudo bem?”
Mensagem encaminhada segundos depois:
“Foda-se. Acabei de atropelar um pombo. De resto, estava tudo bem.”
PATA DIREITA
7 de julho, 2004
COFFEE AND CIGARETTES (*)
“- …a coffee and a cigarette isn’t a very healthy lunch…” (*)
- Don’t worry, it’s my breakfast.
PATA DIREITA
5 de julho, 2004
MARCHAR, MARCHAR
Se apenas por (mais) uma vez, o ontem voltasse a acontecer como nos nossos desejos…
É triste, é triste.
Mas deve ser por qualquer desejo siamês ao anterior, que nos amanhãs eu ainda espremo o cachecol da Selecção.
PATA DIREITA
4 de julho, 2004
HERÓIS DO MAR E DO RELVADO – NÃO HÁ OUTRA HIPÓTESE!!!
Não, nós não somos um pontinho no mapa. Somos a grande mancha VERDE e VERMELHA do Planeta!
Que fiquemos todos sem VOZ!!! A NÓS!!!
PORTUGALLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL
LLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
PATA DIREITA
2 de julho, 2004
...
Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-te na luz, no mar, no vento.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Biografia
27 de junho, 2004
DREAMS (PORQUE TE PASSAS COM ESSA MÚSICA E CONTINUAMOS COM O SONHO)
…e destruir-te e destruir-me porque não dá tempo para tudo mas dá sempre tempo para colar-nos as partes
…não falarmos e rirmos sem que mais ninguém perceba o porquê do riso, rir de coisas perfeitamente estúpidas e parecermos ainda mais parvas ao espalhar notas desafinadas por todo o espaço do ar que vamos ocupando, porque estamos com os cigarros e com os copos, porque estamos sem os copos e refilamos e choramos e gritamos, e tu a apanhares os meus gritos e a cuidares deles e eu a chorar contigo mesmo que não me vagueiem lágrimas no rosto porque elas já estão no teu e eu não quero tirar nada do que te pertence, porque pertences-me por tudo o que tens e eu a pertencer-te mesmo que não me vejas, não me cheires, não me oiças, não me beijes, não me toques, porque sentimos sem os sentidos e tu e eu sabemos disso mesmo que o mundo teime no contrário até ficar às avessas que nós continuamos num vinco da pele uma da outra
…e poderes matar toda a gente e não restar mais ninguém e eu poder matar toda a gente também e restares tu, sempre ali, mesmo que não te veja, não te cheire, não te oiça, não te beije, não te toque porque se nos desencontrarmos viramos o mundo ao contrário que até pode ficar às avessas, até finalmente sermos encontradas numa montanha a adivinhar constelações com pirilampos de cigarro a rir de coisas perfeitamente estúpidas, sem que mais ninguém perceba o porquê de não falarmos porque nós a adormecermos com o vento a assobiar que somos umas sortudas do caraças desde miúdas em collants e saias xadrez e golas com florzinhas, e tu a detestares princesas e eu a pintar o mundo de todas as cores menos cor-de-rosa porque é supercalifragilisticespialidocious conhecermos uma na outra todas as tonalidades e adorarmos para além do adorar as neuras e as cores neutras; o branco e principalmente o preto uma da outra
…e não ter medo de dizer que nos amamos porque essa história do amor ser lamechas é porque nem todas são umas sortudas do caraças, nem adormecem com o vento a assobiar que esta amizade xx não conhece limites nem latitudes nem longitudes nem precisa dos sentidos nem de sentido, mesmo que uma de nós desfeita na lama contigo a meteres a pata esquerda na poça e eu a correr a meter a direita, sem olhar para trás para a frente para o lado porque estou de olho em ti… mesmo agora que te derretes pelo calor e vais-me dizer que são pelas palavrinhas e palavras e palavrões que te deixo de PARABÉNS!
“you see everything you see every part
you see all my light and you love my dark
you dig everything of which I'm ashamed
There's not anything to which you can't relate
And you're still here
What I resist persists and speaks louder than I know
What I resist you love no matter how low or high I go”
E destruir-te e destruir-me porque não dá tempo para tudo mas dá sempre tempo para colar-nos as partes.
PARABÉNS MIÚDA!!!
PATA DIREITA
22 de junho, 2004
DEFINE CINISMO
“ (…) empurravam-no outra vez para a água. Empurravam-no e seguravam-lhe a cabeça debaixo da água.”
Joseph Mitchell, in O Segredo de Joe Gould
PATA DIREITA
18 de junho, 2004
FRASE SOLTA NA RUA
Ao me cruzar com duas idosas apanhei na rede auditiva a seguinte indignação:
- O meu neto chama Deus a Jesus Cristo. Não acho justo; um é Pai e outro Filho, além do Espírito Santo.
E eu a pensar que definir justiça(s) era complicado.
PATA DIREITA
8 de junho, 2004
FUI!
Se há dias em que não se deve sair de casa, existem outros em que a dificuldade é saber quando se mete novamente a pata em casa. Hoje, por exemplo, contei 7 irritantes esmagamentos da minha campainha e sei que
(era ela, ninguém toca assim)
teria que ouvir e sorrir enquanto
- A menina tinha dito que depois batia na porta da frente
arranjava outra desculpa pela "ausência" do envelope, após mais um pregão porque
- As obras da Igreja, percebe?
se há coisa sobre a qual não me gabo é viver em frente a uma beata mas também, hoje, eu não estou em casa.
PATA DIREITA
7 de junho, 2004
ROCK IN RIO – PARTE II (III… TALVEZ EM 2006)
Eu não sei se após o Rock in Rio o mundo ficou melhor. O meu Mundo ontem pareceu-me muito melhor; não sei se foi do milagre dos “rocks” em líquidos voláteis, se dos concertos, mas, de certeza, os amigos contribuíram para isso.
E a minha cama soube-me a nuvem; não são todos os dias que se dorme num céu na Terra.
STING
“Fragile”
If blood will flow when flesh and steel are one
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrow's rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay
Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime's argument
That nothing comes from violence and nothing ever
could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star, like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are, how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star, like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are, how fragile we are
How fragile we are, how fragile we are
PATADIREITA
5 de junho, 2004
BLUE MOOD
"por que motivo as coisas morrem dentro de nós dado que não parece ser lentamente, devagarinho, damos conta de súbito que estamos fartas, não sentimos senão aborrecimento, fastio. vontade de ficar sozinha(...)"
António Lobo Antunes
in Exortação aos Crocodilos
PATA DIREITA
30 de maio, 2004
ROCK IN RIO… NOS VIEMOS
...Rock in Rio. Ninguém foi. A sério. Passei o ano a ouvir “Eu não vou” e realmente essas pessoas, não encontrei. Bem, contentei-me com 60 e tal mil (li eu…).
Grande ambiente, condições: clap, clap, clap!
O espaço é incrível: as Patas fizeram o reconhecimento da zona; e desde as “quinquilharias” que trazemos para casa (o saco de pano, a tatuagem da guitarra… tentativa de nos “render” o preço do bilhete?!) às actividades dos stands, às tendas, ao visual/estética (gosto, gosto muito dos puffs pretos da Tenda Electrónica), a boa-disposição do pessoal das barracas e/ou voluntários, respirar cheiro a terra e a árvores (!) … (Tenho pena que a fila para slide demore uma hora e tal.)
Ouvimos tudo. Desde a Orquestra, os 3 Minutos de Silêncio (sim, o silêncio ouve-se!), o Rui Veloso (há letras do Carlos Tê que são intemporais), Gilberto Gil (aqui foi o almoço à hora do lanche/jantar – não é todos os dias que um Ministro nos dá música à refeição), Jet, BEN HARPER e Peter Gabriel. (Grande presença em palco! E cantou a música que adoro: Solsbury Hill.)
Claro que a minha razão principal pela escolha deste dia dá-se pelo nome de Ben Harper. Porra! Agora, falham-me palavras… aquele gajo é mesmo bom; há artistas assim: passam a mensagem, a essência da música e arrancam-nos para cima do palco! (Quer dizer… as Patas não se tinham importado.)
Nota: Sou da opinião de que o preço é realmente muito alto. Mas é tudo uma questão de opção. E uma vez não são vezes. E valeu bem pena!!!
…um mar de música e gente há-de mexer sempre comigo.
BEN HARPER
"Walk Away"
Oh no- here comes that sun again.
And (that) means another day without you my friend.
And it hurts me to look into the mirror at myself.
And it hurts even more to have to be with somebody else.
And it's so hard to do and so easy to say.
But sometimes - sometimes,
you just have to walk away - walk away.
With so many people to love in my life, why do I worry about one?
But you put the happy in my ness, you put the good times into my fun.
And it's so hard to do and so easy to say.
But sometimes - sometimes,
you just have to walk away - walk away and head for the door.
We've tried the goodbye so many days.
We walk in the same direction so that we could never stray.
They say if you love somebody than you have got to set them free,
but I would rather be locked to you than live in this pain and misery.
They say time will make all this go away,
but it's time that has taken my tomorrows and turned them into yesterdays.
And once again that rising sun is droppin' on down
And once again, you my friend, are nowhere to be found.
And it's so hard to do and so easy to say.
But sometimes, sometimes you just have to walk away, walk away and head for the door.
You just walk away - walk away - walk away.
You just walk away, walk on, turn and head for the door.
PATA DIREITA
SCHALKEARENA DE GELSENKIRCHEN, 26 DE MAIO DE 2004
3 – 0!!!
Eu não me esqueci! A festa é que se prolongou de tal modo que… não interessa. O realmente importante agora é o nosso PORTO, carago!
Pára tudo!
Campeão Europeu 2004, soa bem não soa?
Não, é que soa mesmo bem: Campeão Europeu 2004.
Prestem bem atenção: Campeão Europeu 2004, Campeão Europeu 2004, Campeão Europeu 2004, Campeão Europeu 2004
Campeão Europeu 2004
Campeão Europeu
Campeão!
PATA DIREITA
25 de maio, 2004
TOP 5 (MAIO) - O CAMINHO TORTUOSO ATÉ ÀS PATAS
O meu quinteto favorito de pesquisas efectuadas (em registo nas estatísticas)
que trouxeram visitantes às nossas Patas.
Últimas Pesquisas Efectuadas
24 Mai 04, Seg, 19:47:07 altavista Imagens de Pombas brancas
24 Mai 04, Seg, 18:47:20 google sapatilhas de futebol para baixo dos 70 euros
24 Mai 04, Seg, 16:20:54 yahoo ballet madre perola
20 Mai 04, Qui, 19:25:43 google Além-Mar Deixa-me Olhar acordes
18 Mai 04, Ter, 13:14:26 google COME RESTOS musica
18 Mai 04, Ter, 12:02:09 google corrente eléctrica celulite tratamento
A ordem não é a de preferência. Deixei como ficou registado. Admito, não consigo decidir entre “sapatilhas de futebol para baixo dos 70 euros” e “ corrente eléctrica celulite”. Hmmm… “come restos de música” desperta-me curiosidade… alguém tem ideia do que possa ser?
Juro, juro que não me lembro de ter escrito nada disto.
O ditado está desactualizado; substituam VIDA por NET: “As voltas que a net dá”.
PATA DIREITA
21 de maio, 2004
GRITO
...com licença: AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
(fôlego)
AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
(restos)
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
Ahhhhhhhhhhhh Ah.
Muito melhor. Obrigada. (A vizinha contratou martelos desde as 8 da manhã)
PATADIREITA
20 de maio, 2004
COMPETÊNCIA PARA AMAR
Pois é os Clã estão de volta. Rosa Carne é o novo disco, inclui 14 temas novos, com letras de Adolfo Luxúria Canibal, Arnaldo Antunes, Carlos Tê, John Ulhoa, Regina Guimarães e Sérgio Godinho. Hélder Gonçalves escreveu também uma das letras, mais precisamente para o tema "Pas De Deux". A música ficou a cargo de Hélder Gonçalves.
Para a banda este retorno é muito especial pois marca um novo ciclo na carreira do grupo do Porto. É um trabalho cheio de canções mais intimistas e marcadas de grande sensualidade pela excelente voz e interpretação única de Manuela Azevedo.
O primeiro single a ser retirado de "Rosa Carne" é a lindíssima canção "Competência Para Amar" com letra de Carlos Tê e música de Hélder Gonçalves.
Acho esta letra absolutamente fantástica por isso …
Competência Para Amar
Vieste comigo
nesse jeito pós-moderno
de não querer saber nada
de não fazer perguntas
essa pose cansada
tão despida de emoção
de quem já viu tudo
e tudo é uma imensa
repetição
não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta
depois quase ias embora
desse modo
evanescente
não soubesse eu ver-te
tão transparente
e teria sido apenas
o encontro acidental
uma simples vertigem
dum desporto radical
não fosse a minha competência para amar
e nunca teriamos acontecido
num mundo de competências
e técnicas de ponta
a dádiva da fala
quase já não conta
PATA ESQUERDA
13 de maio, 2004
FINAL DA TAÇA DE PORTUGAL
Como é de conhecimento geral este domingo disputa-se a final da Taça de Portugal entre duas das maiores equipas de futebol portuguesas Porto e Benfica. È uma final de taça com sabor a derby e que posso desde já afirmar com toda a certeza que será o maior acontecimento desse dia ;)
Assim venho lançar um desafio, o objectivo é ver se alguém consegue acertar no resultado deste que será um grande jogo ainda que metade dos jogadores ande à pancada como é habitual. Para participarem basta que deixem as vossas apostas no espaço reservado aos comentários, isto é assim uma coisa do tipo totobola da blogesfera. Desejo boas apostas e que se divirtam. Eu começo por dar o exemplo e uma vez que sou benfiquista aposto numa vitória para o Benfica por 2-1.
PATA ESQUERDA
6 de maio, 2004
LUA, LUAR, QUE SEGREDOS TENS PARA CONTAR?
Passei a semana inteira com a cabeça na lua, não que seja um fenómeno alheio à minha pessoa mas esta semana estive literalmente com a cabeça na Lua. Quer dizer cuidado com o literalmente uma vez que a minha cabeça não tocou na lua nem tão pouco mais ou menos. Isto tudo começou quando li o post da Maria Lua que aproveito para elogiar, (não que a autora já não saiba o que penso sobre a sua escrita) mas estava mesmo bom, gostei imenso, muito bom texto. Assim a ver se me livro do que já chamo a maldição da Lua e antes que me transforme em algo pouco “natural” resolvi em noite de Lua cheia dedicar, como já todos por esta altura previram, este post a esse magnifico astro.
A Lua é o único satélite natural daTerra:
órbita: 384.400 km da Terra
diâmetro: 3.476 km
massa: 7,35e22 kg
Chamada de “Luna” pelos Romanos, “Selene” e “Artemis” pelos Gregos, e muitos outros nomes em outras mitologias.
A Lua, é claro, é conhecida desde os tempos pré-históricos. Ela é o segundo objecto mais brilhante no céu depois do Sol. Como a Lua orbita em torno da Terra uma vez por mês, o ângulo entre a Terra, a Lua e o Sol muda; nós vemos isto como o ciclo das fases da Lua. O tempo entre sucessivas luas novas é de 29,5 dias (709 horas), um pouco diferente do período orbital da Lua (medido em relação às estrelas) já que a Terra percorre uma distância significativa na sua órbita ao redor do Sol neste tempo.
Pronto depois destes pormenores que se podem revelar um pouco chatos se não estivermos para aí virados e que fazem este post parecer um trabalho de casa qualquer que me esqueci de fazer, vamos ao que interessa.
Após algumas pesquisas na Internet pela palavra Lua não é que me deparo com uns malucos quaisquer que querem culpar a Lua pelo desastre do Titanic baseados nuns estudos duvidosos baseados numa teoria qualquer da Lua fora de Curso. É verdade temam este fenómeno, acho que o país devia parar nos dias em que este fenómeno ocorre, ninguém deveria sair de casa, é um perigo, vejam lá até afundou o Titanic. Por isso deixo-vos com esta tabela, e ao mesmo tempo presenteio-vos com esta magnifica desculpa para faltar ao trabalho e ás aulas e a tudo o que vos apetecer.
Na próxima Lua cheia prometo trazer outro fenómeno deste tipo, isto está claro se este não me levar a melhor ;).
PATA ESQUERDA
2 de maio, 2004
MARIA-LUA
Mãe, para ti.
A vassoura que o Sr.Damasco protege entre as mãos encarquilhadas acabou de descobrir mais um cantinho onde se escondeu poeira. Ainda hoje, sentada nesta mesa do seu Café à sombra da palmeira, recordo-me da Maria-lua de olho verde e outro azul. Vivia numa cabana de madeira isolada num vale. Acordava cedo para mugir as vacas, depois corria com o cão e ambos tentavam apanhar coelhos. À hora do almoço a mãe chamava-a e ela trazia sempre para a jarra da mesa um ramo de flores silvestres; lilases, porque não gostava das brancas. A mãe sabia do desejo da filha; depois de aconchegá-la na cama com os beijos de boa-noite espreitava pela porta entreaberta. Durante noites a fio viu a Maria ajoelhada no tapete junto aos pés da cama; com ambas as palmas das mãos encostadas e de olhos bem fechados a rezar pedindo a Lua. A única coisa que a Maria queria era ter a Lua só para si.
Numa manhã de Primavera, saiu da cabana e levava como sempre um balde para recolher o leite das vacas. Quando lá chegou nem acreditava; a Lua tinha caído no seu vale! Deu pulos de contentamento e correrias em torno da lua até se cansar. Parou, e muito aflita reparou que a Lua estava roída; as vacas comiam-na aos bocadinhos. A Maria bem tentou afastá-las, mas eram muito pesadas e ela caía sempre ao chão porque ficava sem força nos braços e nas pernas. “As vacas comeram a lua toda.” - Era nesta parte que eu perguntava: “Mas como é que a Lua ainda está no céu?” A história tinha um fim: “Sempre esteve… A Maria acordava cedo para mugir as vacas, depois já não corria com o cão porque passava o dia a separar do leite os bocadinhos de lua. De noite, subia a montanha e chorava por não haver luar. Ao chegar ao topo, atirava para o céu cada pedaço de lua que tinha recuperado.”
A minha mãe contava-me esta história todas as manhãs, distraindo-me para comer as papas com leite. Entusiasmava-me a ideia de que podia encontrar no meu prato algum “bocadinho” e também subir à montanha para ajudar a Maria a reconstruir a Lua.
Ninguém sabe a história da Maria-lua. A minha mãe inspirou-se no meu babeiro; branco, onde contornos desenhavam uma menina e um cão, ambos sentados no cume de uma montanha a olhar para o céu. Entre as palmas encostadas, a menina segurava um ramo de flores. Um dia decidi pintá-las com caneta de feltro roxa e as “nódoas” nunca mais saíram.
“Mudam tudo! Mudaram todos… só não muda a poeira!”, refila repetidamente o Sr.Damasco, enquanto varre-me os pés e pede desculpa, justificando-se com a posição desta mesa; entre as escadas para a casa de banho e a passagem das bandejas. Ainda agora, sentada no Café Palmeira, recordo-me da Maria-lua ao som do desabafo: “Parece que tem cola esta esquina. Cola-se tudo aqui: fregueses e poeira! Mas a poeira não muda, mudam as pessoas!”
Não acredito muito nas palavras do Sr.Damasco. Sei que as diz com a sinceridade que os seus setenta anos proporcionam quase por espontaneidade. Convencem-me as suas estórias e “ditos” característicos de uma geração portadora de uma sabedoria abandonada nos dias de hoje. Mas não me convence a palavra “mudança” para as pessoas; ninguém se substitui ou se transforma no que não é. Quanto muito apresenta uma “nova forma”, e essa transformação é uma “evolução” – tal como a lua; adquire formas diferentes para nós que a observamos mas não muda, o que muda é o quanto podemos ver da sua face que está iluminada pelo Sol.
Eu gostava de contar a história da Maria-lua ao Sr.Damasco. Dizer-lhe que ao contrário dela, não precisamos de pedir o satélite só para nós: porque ele é tal e qual uma lua, bem como todos os fregueses que já passaram e os que ainda estão no seu Café. Mas se eu disser: “Sr. Damasco, eu a lua; não mudo, mas os olhos dos outros iluminam-me de várias maneiras” – ia disfarçar o riso com uma longa fungadela do seu nariz adunco. Coçava a careca e com a pronúncia madeirense que me encanta na sua voz grave acabava por perguntar: “Menina Maria, mas como é que a Lua ainda está no céu?”
Um dia escrevo a história da Maria-lua de olho verde e outro azul. Se me perguntarem porque tinha um olho de cada cor, respondo que quando chorava as lágrimas desciam pela montanha e desaguavam no mar… Dizem que o mar é azul, mas alguém já me disse que era verde…
- Sr. Damasco, a Lua e o Mar sempre lá estiveram… As pessoas não mudam, mudam os olhos de quem as vê.
PATA DIREITA
29 de abril, 2004
A VELHA DO CAFÉ
A porta de vidro atravessada é fronteira entre o ar gélido que te desenhou esse nariz de palhaço. Um nariz desconsiderado quando entras no café. Ao fundo, lá está o homem que folheia páginas com cheiro a jornal. Ergue a mão e ajusta cuidadosamente os óculos, depois afaga a pequena quantidade de cabelo (da mesma cor que o teu). Inconscientemente imitas aquela carícia. Sentes os fios grisalhos gordurosos, ele não. Marcas presença pelo cheiro a mofo, oriundo das peças negras trajadas – um esforço inútil para disfarçar a sujidade acumulada.
Num movimento de caracol inicias longa caminhada. Anseias por uma igual às que aqui observas; brancas, pequenas, todas com uma asa, umas pousadas, a levantar voo, muitas acompanhadas do nevoeiro provocado por cigarros, solitárias ou a partilhar as mesas com outras. Vens em busca do sabor que a tua caducidade não alterou. Não ocupas nenhuma mesa. Os pés inchados atracam no balcão, onde dois polícias mantendo a pose, trocaram as cervejas por chávenas de conteúdo desconhecido. Suspeitas – ou talvez a certeza é tímida – que pelo toque se revelam quentes.
O teu «boa tarde» cai no vazio. Respondem-te com palavras desorganizadas das várias mesas, as mesmas ouvidas desde a travessia pela fronteira de vidro. Dos teus lábios murchos, desabrocha uma ladainha abafada pela música da rádio. Cresce-te a solidão sentida… E este café está apinhado de criaturas.
Tentas entender o paradigma imposto. Será por possuíres algibeiras rotas; com buracos fartos da corrente de ar, e por elas cessava o tilintar na caixa registadora? Importa (talvez) o aspecto das mãos; retalhadas, linhas cor da terra, unhas disformes em comprimento e dedos em largura… Calos que sobrevivem graças ao cortejo desses sacos de tralha… Será do rosário de prata (ainda vendível) que te faz comichão no peito, e apalpas de modo afectuoso? Ou talvez do terço do rosário? Aí, balança o objecto familiar das tuas súplicas – aqui já ninguém reza . Aí balança a medalha que exibe uma imagem gasta…
Em vão, todos parecem convergir para a tua divergência. Sem direito a explicação foste remetida para a contraluz.
Alguém fala sempre contigo. Entre o bigode farfalhudo e um queixo proeminente surge a pergunta mágica do teu dia: «o mesmo de sempre?» A tua mão treme ainda mais, tal é a firmeza da boca. A mão treme ainda mais com o calor momentâneo. A tua mão treme ainda mais, agora; finalmente aquece-se o corpo ferido. Alcanças a fresta do tempo, onde a simplicidade de um gesto destrona a complexidade do pensamento ditador, do pensamento que estabelece diferenças. O teu acto é beberes esse café. Por um momento tornas-te igual a nós.
Todos os dias o teu pagamento difere dos outros – um sorriso camuflado por detrás do balcão. Voltas a ser única. Nunca ouves quando te digo «até amanhã e bom regresso a casa» porque simultaneamente pergunto-me: terás um lugar ao qual chamas de casa?
Sais com a muleta deixada à entrada, na companhia de guarda-chuvas que não são teus. São eles sempre os últimos – aprecia-los como obras de escultura, embora não estejas a sair de uma galeria envidraçada – a te perder de vista. A perder de vista esse rosto encarquilhado e aninhado no tronco curvilíneo, os pés a serem arrastados, como se receio tivessem de não sentir o chão. Desta vez, porém, movimentas vagarosamente o pescoço, e de respiração sustida despedes-te da chávena que te aqueceu; branca, pequena, com uma asa solitária pousada em cima do balcão.
27 de abril, 2004
TRAIÇÃO: REVERSÍVEL OU IRREVERSÍVEL?
“
- Traí-te – disse ela, sem rodeios.
- Traí-te – disse ele.
(…)
- Depois disso, jamais sentimos o mesmo por essa pessoa.
- Não – disse ele –, já não sentimos o mesmo.
Parecia já não haver mais nada a dizer.”
Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, George Orwell
PATA DIREITA
25 de abril, 2004
CANTIGA DE ABRIL
Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
«Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade»
J. de S.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste pais,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura,
e o poder feito galdério.
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.
Qual a cor da liberdade?
É verde. verde e vermelha.
Essas guerras de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por politica demente.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.
Qual a cor da liberdade?
E verde, verde e vermelha.
Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.
Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
26-28(?)/4/1974
Obras de Jorge de Sena
"40 anos de servidão"
Edições 70
1989
Será que conseguimos uma liberdade verde e vermelha, ou uns ficaram com a vermelha e outros com a verde? A liberdade jamais será uma e una.
PATADIREITA
24 de abril, 2004
CAMPEÕESSSSSSSSSSSSSSSSSSS!!!
Apenas para partilhar um grito: PORTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!
PATA DIREITA
20 de abril, 2004
AS PORTAS SÃO PONTES NÃO DERRUBADAS
Passadas secas, toc, repetidas, toc toc, de dinâmica apressada, toc toc toc toc, denunciam esta chegada, este enjoo que não passa, este desassossego interminável. Logo ao primeiro passo, toc, degrau e calcanhar tocaram-se, em ânsia, e eu roí-me de inveja. (E o teu toque que nunca mais chega...) Roo-me tanto por dentro. Nem vislumbro uma aresta da tua porta e já eles se tocam continuamente, toc toc, num chinfrim desenfreado, toc toc toc toc, acentuado a cada volta que conquisto desta escadaria em espiral. Eu sei meu amor, ainda ontem após os separar – deixei os degraus para atrás e entregava os meus calcanhares ao teu tapete – lamuriei-me do meu ciúme por esta situação. Pareceu-me acompanhar-te um sorriso enquanto abanavas levemente a cabeça e disseste:
- Parvo.
Rói-me a certeza da incerteza. Esqueci-me meu amor. Esqueci-me de fingir o esquecimento de um poema entre as páginas do jornal que repousa à tua porta, de uma mensagem ridícula para fazer pisca-pisca e um "ti-rí" irritante no teu telemóvel, para escrever-te que adormeci a pensar em ti, que acordei a pensar em ti, que galgo estas escadas a pensar em ti para não ter que pensar em ti porque quando estou contigo esqueço-me de pensar. Mas a tua ausência faz-me esquecer de me esquecer de ti. Esqueci-me de esticar o indicador e molhá-lo em saliva para sentir o ar em movimento. E se sopram ventos contrários; os que me empurram escadas acima e os que te desviaram de casa? Terei o nariz colado ao ângulo onde se cruzam as semi-rectas da tua clavícula e do teu pescoço? Qualquer prescrição torna-se desnecessária perante tamanha necessidade do teu cheiro; que me queima o desassossego, da longa inspiração que me causa, que desfaz qualquer enjoo.
Tento transmitir o calor da minha mão à maçaneta fria da tua porta, na certeza de que está trancada, e este meu punho metediço inicia o pregão: tac tac. Estará a tua íris à espreita no buraco da fechadura? Ainda ontem te disse que «não percebo muito bem o teu fascínio por esta porta» e uma vez mais abanaste levemente a cabeça ao dizeres:
- Tolo.
Admito que mordo o lábio – não como trincas o teu provocando-me súbitas paragens respiratórias – para aguentar a cobiça, aquando a tua explicação sempre que a acaricias embevecida:
- Repara na madeira; carcomida, nos tons de vinho tinto, onde sobressai o relevo destas pequenas folhas em ferro... repara como imitam quase na perfeição uma hera.
Eu sei meu amor, tem um revestimento de plantas trepadeiras férreas, mas continua a ser o portão de um cárcere. Ainda não percebi muito bem – nem vou perceber – como podes ter tanto apreço por esta estrutura inexorável; que me impede de entrar, que te impede de sair. Ainda não percebi muito bem como dia após dia soa tac tac, quando sinto o pé em polvorosa neste sapato querendo pum! Pum, pum, pum! Não calculas a vontade de derrubá-la num só pontapé. Descascá-la ainda mais; dar voo às farpas de cor avermelhada e desfolhar toda essa hera ferrugenta. Depois saltarmos em cima da porta estatelada num chão de folhagem metálica. Transformar o nosso carcereiro em passadiço! Eu imagino trazer-te um Outono para a entrada. Ainda ontem te desafiei a tentarmos:
- Se dispararmos as farpas cor de vinho pelo ar talvez sofram metamorfose, e conseguimos ver uma chuva de violetas.
Desta vez tenho a certeza que sorriste antes de comentar:
- Puto.
Não meu amor, não te amo tanto para compreender que não estejas a meu lado porque este portal te faz ser feliz. Deveria ser uma ponte de madeira e não uma porta. Devia apressar a minha chegada a ti e não arrebitar-se como um obstáculo. Amo-te tanto para te querer aqui; dentro da minha felicidade, do meu lado da ponte e fora de portas – que não são mais do que pontes verticais, pontes não derrubadas.
Quando chegares senta-te comigo no passadiço onde não chovem violetas. Eu sei meu amor, ainda hoje… arranjo a porta.
PATA DIREITA
19 de abril, 2004
JOAQUÍN CORTÉS - MADEIRA, 17 DE ABRIL DE 2004
Olé!
Sábado, o Joaquín dançou para mim. Ignorámos completamente o que estava de e por “fora”; na música da dança dos pés dele, das cores e luzes, dos nossos sorrisos – o meu na plateia, o dele no palco. Estavam lá duas mil e tal pessoas, mas nós não nos importámos nada com isso.
Olé!
Ah Joaquín, Joaquín…
PATA DIREITA
15 de abril, 2004
BUONA SERA PRINCIPESSA
Eu gostava de contar um segredo, não sei porquê
- eu até sou tímida -
mas sei que o quero fazer; quero contar que não cresci aqui
- Bambina
nem pintava os lábios agora preenchidos, delineados, cravados a escarlate escaldante para não destoar das outras mulheres
- eu até sou vaidosa -
e da próxima vez pode deixar de me tratar por
- Morfina
(Escolha estranha para um nome.
Não acha que acalmo as dores e logo causo sonolência?)
esse nome... Nem é o de baptismo colocado pela minha madre
(ainda enraizada onde as cores são aguarelas e as águas têm luz)
deixada para trás, no dia em que me despedi do Francesco de encontro a esta cidade.
(Mais bonita que a tua?
Não foi amor à primeira vista... acredito que nem o Francesco quando mo tentou explicar ao gritar para a janela do comboio
- Ti amo
sabia o que isso era... Só me apercebo de como o gostar é crescente e não imediato quando meu fratello telefona aos berros
- Dove siete? Dove siete?
a exigir que volte para casa, e sou incapaz de comprar o bilhete para o abandono deste cheiro.)
No dia em que me despedi do Francesco deixei-o, deixei-me - ambos para trás, emoldurados em vidro, numa janela do comboio; ele em terra firme de choro escondido e eu aos solavancos dos carris a vazar
lágrima
a
lágrima
cada ruela estreita e
pingo
a
pingo
os inúmeros atalhos; atarantados, atrapalhados, sufocados pelos bazares, pelas quinquilharias dos bazares, pelos turistas inebriados com as quinquilharias dos bazares atrapalhados, atarantados e sufocados pelos flashes estonteantes dos turistas inebriados mas... ...
No dia em que despedi do Francesco não deixei para trás a memória, não se esvazia de nós aquela sensação; de nunca desarmar das ruelas e dos atalhos por mais obstáculos (des)humanos que germinassem, de nunca desarmar do fim das ruelas, do fim dos atalhos, de nunca desarmar da conquista do fim do labirinto
(eu ficava sempre com a língua quente)
até se abrir em frente, à nossa frente, até se abrir à minha frente uma piazza daquele tamanho e
(eu ficava sempre com os olhos surdos)
era engolida pelos monumentos: Basílica de San Marco, Campanile, o Palazzo Ducale; espreitando à sua esquina a Ponte dei Sospiri e a gôndola do velho Pablo Macchiarolli
- Conheço mais de quatrocentas pontes
a respingar as asas das pombas
- Mais de quatrocentas gôndolas percorrem estas águas
colhendo o meu fôlego, sempre expedita na colheita dos canais e ao me desencostar da almofada veluda quando o velho estendia a mão
- Ragazza
saltava da gôndola sentindo-me princesa ao chegar a casa, onde logo aparecia meu fratello a invadir
- Onde andaste?
a minha historieta, atirando-me
- Não prestas para nada
peças de roupa para a cara, acusando
- Graças ao meu sustento, é o que é
um síndrome de irmão mais novo
(nessa altura desconhecia que a jovialidade não impedia o envelhecimento do espírito)
porque a vida a ele correu bem; formou-se, empregou-se e casou-se – realizou os sonhos da minha madre
(deixada para trás com o entardecer das escadas da stazione).
(E o Francesco?
Carregava constantemente nos lábios
- Ti amo
um sentimento não correspondido.)
Eu gostava de contar que não cresci aqui, não neste bairro de corpos estendidos verticalmente, horizontalmente, de corpos com vestígios de olhos; raiados, semi-cerrados, extraviados em ruelas e canais
(Como tu fazias.
Gôndolas há muitas...)
e é vê-los a desvendar universos "Lynchianos"; arrepios alternados com ardência faça dia ou faça noite, entrelaçam-se
(todo o tipo de gente)
nos prédios pictóricos tortos
(todo o tipo de drogas)
encaixados uns em cima dos outros
(todo o tipo de ideais)
e é vê-los a apreciar o bairro; a pé, em passeio de bicicleta, carro, aconchegados numa gôndola
(todo o tipo de gente)
sem falharem o meu afamado habitat
(alguns com entusiasmo camuflado mesmo sabendo que a sua imaginação será suplantada ao pisarem este território)
e é vê-los entrar em becos com saída de outros, comentando
- Legalização da mais velha profissão do mundo
um suposto paraíso
(A tua profissão é...
Um ponto final na hipocrisia.)
e é vê-los a multiplicarem-se na descoberta
com um horário
com limitações de área
com entrada livre
das nossas portas vermelhas luminosas, onde eu
- Bellissima
nascida na apaixonante Venezia; reino do meu perfeito frattelo
- Oggi!
e da garantia do Francesco
- Ti amo
na realização segura e confortável da quimera
(não minha, da minha madre
deixada para trás com o anoitecer da cidade – a melhor despedida que Venezia me podia dar)
vim ao encontro da Bruna do Brasil, a Miriam do Canadá, até a Borecka da Polónia que pouco
- Yes
ou nada
- No
diz
- Thank you
ou mesmo das gordas, magras, das negras às brancas, orientais, ruivas, as que exibem celulite e as que não, as com a minha idade, com a idade da minha madre, para todas preenchermos as montras porque aqui
- Mínimo quarenta euros
somos realeza.
Eu gostei de contar todo este segredo, não sei porquê
mas sei que o quis fazer quando ouvi
- Se pago lá se vai a prestação
o seu problema, porque problemas
- Morfina, a Borecka apanhou clamídia
temos todos e o conto de fadas é vivido pelo Francesco com outra qualquer, outra que não eu
(eu até imagino essa donna)
porque eu vivo em Amesterdão no distrito das luzes escaldantes que não destoam dos meus lábios e
(eu até imagino os lábios dela)
ele sempre gostou de cores sóbrias.
(Diz-me o teu nome.
Madona, como nas pinturas de Rafael Sanzio; minha madre sempre gostou daquelas representações da Virgem Maria com o menino Jesus.)
14 de abril, 2004
A MONOTONIA
Porque li e gostei, porque estou de volta a casa e porque o conforto do lar pode ser desconfortável. Deixo-vos este texto, só é pena o autor preferir o anonimato…
Quando falamos de monotonia, temos de ter em conta como esta se manifesta, afecta e influência no dia a dia. Ela pode estar presente em qualquer lado, não escolhe sexo nem idades e muitas vezes esta esconde-se no lar…
Pois é, o lar é aquele sítio onde parecemos estar mais seguros que não deixa de ser aquele sítio que mais banalizamos, local propício a um ciclo vicioso onde cada dia que passa parece uma simples réplica do dia anterior.
Não vou dizer que esta história é a história interminável, mas provavelmente a história incompleta, pois certamente não irei acabá-la.
Mas enquanto estiver nesta onda prometo que irei manter os meus neurónios a funcionar.
Depois de um dia cansativo nas aulas, chegar a casa podia ser uma vitória, mais uma etapa ultrapassada, mas quando jogo a mochila para um canto, me sento na cadeira em frente ao pc com a minha tablete de chocolate a ouvir a minha musica e a conversar feito louco no Messenger. Desço ao mundo real e subitamente começo a especular, terei recuado no tempo, ainda ontem à mesma hora estava aqui nesta mesma cadeira, a mochila estava naquele mesmo canto e eu estava a saborear uma tablete de chocolate igual a esta.
E o tempo passa!!!
Eis que dão dez horas da noite, o relógio de pêndulo do meu pai dá as supostas dez badaladas. Os próximos minutos são previsíveis, com uma margem de erro de uns trinta minutos a minha mãe irá chamar para ir jantar. E chamou!!!
O jantar foi reconfortante, para variar eu estive calado, passei despercebido, o assunto foi o mesmo (trabalho), mas o prato foi diferente.
Uma vez mais depois do jantar, peguei na minha guitarra, objecto precioso abençoado pelos deuses e desatei a dedilhar e a solar numa tentativa desenfreada de me expressar ou até mesmo libertar alguma dor, tristeza e muito sentimento. Bem os dedos já doem, a dor que era psicológica passou a dor física. O pessoal continua no Messenger, vou lhes dar um olá e a seguir vou estudar um pedaço. (Mas afinal de contas eu estou a enganar quem? Só se for a mim próprio!!!), o mais provável é eu embarcar na conversa até a meia-noite e depois ir me deitar. Era inevitável a rotina estava de tal modo definida que possivelmente era bem mais fácil mover uma montanha. Procuro nos rostos dos deuses uma forma desta vida sem sentido mudar. Mas os deuses já não sopram por estas bandas, provavelmente encontraram alguém mais digno para abençoar. Então deito-me, aquela ansiedade de amanhã voltar para a escola volta de novo, com ela volta também aquela sensação de estar só, mas sei que não estou só, quanto muito estou mal acompanhado. Nisto começo a adormecer, é aquele estremecer da luz que se propaga num grande apagão.
Profundo, profundo, monótono, bateu no fundo
Nas trevas e na escuridão ficou toda a emoção
Querer ser bem sucedido numa vida sem sentido
Na imensidão de uma comunidade que nos deixa na solidão
E porque a solidão faz parte da vida não quer dizer que a vida não possa ser vivida sem a solidão.
Eu não vivo na solidão, longe disso, mas tenho receio que esta me tome, pois tenho mais ou menos a noção do sofrimento que esta possa causar, pode-nos levar a loucura ao isolamento e quem sabe para o oposto da vida… Aquela realidade que nos amarra com a força do mar contra a barra e que não deixa de existir.
PATA ESQUERDA
11 de abril, 2004
AMANHÃ AS GALINHAS VOLTAM A PÔR OVOS
Estamos em pleno domingo de Páscoa – dia indicado para meditar.
Encarnamos autênticos javardos com os cabritos, chocolates, ovos... whatever! E nem paramos por um momento…
TÁ MAL! TÁ ERRADO!
Ora ninguém se questiona sobre nada? Pois eu admito; rejeitei a enésima sobremesa e meditei. Reflecti sobre um facto; o facto de se escolherem símbolos como ovos de chocolate e coelhos para esta “festividade”.
Ninguém medita sobre o facto de se escolherem símbolos como ovos de chocolate e coelhos?!? 1) OVOS 2) COELHOS
Os coelhos põem ovos??? Ou não, mas na Páscoa abrem uma excepção? É isso? E nunca disseram nada?
Este planeta é habitado por pessoal estranho... mas lá por isso não devemos deixar de meditar sobre estes factos.
Como é que se constroem estas tradições cheias de contradições?
Well... and that's all folks!
Posso dizer que o espírito dos coelhos esteja convosco, arriscando ser acusada por pensamentos bíblicos: “Amai-vos e multiplicai-vos”.
PATA DIREITA
6 de abril, 2004
BRANCO SOMBRIO
A ti, por seres a minha “best”
O quarto desenha uma oval quase perfeita. Quatro paredes circunscrevem essa fortaleza na qual te situas exactamente no centro, sob uma cobertura de tela branca. Substituíram o firmamento por esse tecto. Branco. Não tão gigante como a cama das constelações mas de tamanho desmedido para ti. Nem em bicos de pés chegas a metade. O empenho em te esticares esmoreceu; antes fingias que de manhã os dedos de um ciclope acordavam nas tuas mãos e tocavas no tecto. Branco. Colocaste estrategicamente o espelho defronte do piano. Miravas-te na superfície polida e sorrias. Quando auscultavas a Sonata n.º 11 acompanhava-te um Mozart espelhado, a tocar por detrás de ti. Só para ti. Depois dançavas – tens espaço para dançar. Circum-navegaste por todo o quarto. Piruetas. Saltos. Foste bailarina vezes sem conta, e nunca enroupaste um corpete bordado ou uma saia de tule. Muito menos sapatilhas de ballet. Os pés descalços osculavam o piso de mármore em comunhão com o tronco despido. Sempre dançaste nua. Outras vezes, também desprovida de um traje, fechavas os olhos e soltavas agudos. Risos. Gritos. Reproduzias a ária Casta Diva, atropelando as notas elevadas de Maria Callas e reunindo-as num som contínuo – tal e qual uma buzina. Novamente, sorrias para o espelho. Ao contrário do pequeno génio – Mozart surgia sempre sozinho –, vários reflexos assistiam-te. Escondias a cara emocionada atrás das mãos. Quando cessavas a cantoria, saudava-te uma multidão: “Brava Callas! Brava Maria!” Inclinavas o pescoço ora para a esquerda, ora para a direita, para acompanhar as tuas vénias de agradecimento às imagens reflectidas.
Rente à janela uma única estante mura a parede arredondada do fundo. Apenas uma estante. Personalizada. Os livros com as lombas acanhadas, viradas para dentro. Páginas outrora brancas exibem obras com recheio amarelado. Agora, gostas ainda mais delas por não estarem brancas como o tecto, como o quarto. Cansa-te o branco. Cansa-te o branco da cama; três almofadas que não amarelaram sobre uma manta cândida. E mais branco. Nas cortinas. Na luz que desafiou a ombreira da janela arrastando-se por ti. Pela tua túnica. Já não cantas nem danças. Não te deixas ficar nua. Cansa-te o branco da túnica que te encapota os pés.
Entre cada par de rectângulos em mármore, despedes-te de uma tela que pintaste com Pollock. Estão dispostas metodicamente no chão. Não as queres estragar. Recordas o dia em que partiram o espelho para caldear os cacos com a tinta dos baldes. Adoraste o facto de ele já não utilizar o pincel. Sabes distingui-las na perfeição; as que pincelaste com serapilheira, das pinceladas com a piaçá – recusaste utilizar a escova de dentes e ninguém te cedeu cordas. Mas sabes distingui-las. Sabes também que não as podes levar contigo. Prometeste deixar tudo para trás, até o piano. Logo o piano… Pertence-te a ti o privilégio de o ouvir! Estás diferente. Prometeste deixar tudo para trás.
Hoje, finalmente, deixas também para trás o branco. Abandonas tão levemente o centro do soalho marmóreo, que nem pareces tocar na pedra calcária. Quando estamos vazios os pés têm medo do chão? «Não sei». Ultimamente não tens certeza de nada.
Trespassas o portão e vislumbras a tua moradia. Tal como a luz, outras túnicas brancas desafiaram as ombreiras da janela e despedem-se de ti. Relembram a saudação do espelho: “Brava Callas! Brava Maria!” Deslizas a mão vacilante para a algibeira e retiras um lenço vermelho, onde guardaste o comprimido. Precisas de te acalmar. Encaras a palma coberta pelo tecido encarnado; a pequena pastilha e um bocado de papel. Branco. Desdobras a pequena folha e lês.
Maria:
Parece-me que após todo este tempo, é-me permitido abordá-la pelo seu nome próprio. Apenas queria lembrá-la do nosso encontro, próxima Segunda-feira.
Não tenha receio. Lá fora tudo é possível. E nem o céu é o limite para nada.
Até breve,
Dr. Neves Branco
«E nem o céu é o limite para nada», repetes, e desejas que se façam coletes de força coloridos. Cansa-te o branco.
5 de abril, 2004
CHOCOLATE!!
Hoje estou contente, estreio-me no “Patas” renovado, e lembro-me do dia em que tanto choveu que eu e a pata direita tanto ensopamos e enlameamos as nossas patitas que desta forma baptizamos esta já quase segunda casa. Hoje não chove, muito pelo contrário esteve um dia muito bonito mas aqui, independentemente do boletim meteorológico existem sempre muitas poças onde enfiar as nossas e as vossas patas.
Assim, depois desta breve introdução, e uma vez que a Páscoa está mesmo aí a chegar deixo-vos com esta dieta no mínimo diferente. Por incrível que pareça é uma dieta à base de chocolate, que se tivesse de a publicitar escolheria para slogan “ Emagreça comendo toneladas de chocolate” tenho a certeza que funcionaria às mil maravilhas embora não acredite que alguma vez alguém me voltasse a levar a sério. Nutricionistas deste país segurem-se, recomendo que estejam bem sentados porque aqui está ela, a dieta de sonho:
Dieta à Base de Chocolate
1 - Come uma barra de chocolate antes de cada refeição. Isso reduzirá o teu apetite ao mínimo, e comerás menos.
2 – O chocolate é um VEGETAL. É feito de cacau (cacau =vegetal) e de açúcar. O açúcar é feito de cana ou de beterraba. Ambas são plantas, ou seja, vegetais. Logo, o chocolate é, integralmente, um vegetal. Praticamente uma SALADA.
3 – O chocolate também leva leite. Portanto é um alimento muito saudável.
4 -O chocolate pode ser recheado com passas, morangos, laranjas, cerejas, etc. Isto tudo são frutas, e a fruta é saudável, portanto, come à vontade quantas barras desejares.
5 - Problema: como levar 1kg de chocolate da loja para casa num carro quente? Solução: comes no estacionamento.
6 - Equilíbrio: se comeres porções iguais de chocolate branco e chocolate preto...isto é uma dieta equilibrada. Saudável, portanto.....
7 – Os chocolates têm muitos conservantes, logo...conservam-te.
8 - Escreve "Comer chocolate" no início da tua lista de coisas a fazer hoje. Assim, pelo menos UM dos itens da tua agenda vais conseguir cumprir.
9 - Uma boa caixa de chocolates pode fornecer toda a tua necessidade diária de calorias. Não é prático?
10 - Lembra-te: STRESSED soletrado de trás para a frente dá DESSERTS (sobremesas). Portanto, sobremesa (de preferência de chocolate) é o antídoto do stress.
A Internet é realmente uma fonte inesgotável de sabedoria!
Espero que cumpram rigorosamente esta dieta para quando pesarem 100Kg se lembrarem de mim.
PATA ESQUERDA.
3 de abril, 2004
PRECISO MOMENTO (OU MOMENTO PRECIOSO)
…a lua 100% cheia.
PATADIREITA
2 de abril, 2004
MR. WHAT?!?
Tudo começa assim:
”Tem problemas com pára-choques?
-----» Nop, o meu problema já partilhado é mesmo com os choques.
Tem um torcicolo?
-----» Por acaso, há uns dias atrás estava a pentear-me e quando movimentei a cabeça não conseguia rodá-la para a esquerda. Passei o dia todo a olhar as coisas pela direita. Mas já passou, obrigada.
Tem sangue azul?
-----» (Risos) Nem por isso. As últimas análises revelaram um líquido espesso e vermelho. Já agora devia falar com umas das patas cá da casa que pertence à realeza.
Não interessa qual é a sua desculpa, ganhe um tratamento VIP do Mr. Parking
no Centro Colombo.”
-----» Eu não me estou a desculpar de nada; não invente mais problemas com o carro, nem quero novamente ter um pescoço meio robótico e eu gosto do meu sangue vermelho! E quem é esse gajo?
Este é o Mr Parking!
Serviço Mr. Parking
- Hei Mr!
- Are you talking to me?
- I’m talking to you.
- I say: are you talking to me?
- Yes. Quero ganhar um estacionamento gratuito!
– O.K. Mr. Parking tratará do assunto.
Agora, meus amigos o que se pode dizer acerca deste tipo de publicidade? Primeiro: não nos tratem como atrasados mentais. Segundo: se não sabiam traduzir tudo para inglês podiam esforçar-se o mínimo: existem programas de tradução! Terceiro: DON’T PUT YOUR F****** HANDS ON MY CAR! (Ops… Não put tuas hands on my carro!)
PATA DIREITA
31 de março, 2004
O MENINO QUE TINHA TUDO PARA SER LADRÃO
A minha quarta ou quinta palavra foi «bófia». Talvez por desde pequeno nos tratarmos no bairro por «manos». «Manos» deve ter sido a palavra que aprendi antes de bófia. Mas eu nunca fui contra a polícia. Os outros sim. Claro que ninguém gosta de acordar de madrugada com sirenes. Estridentes. Azuis. Incandescentes. Quer dizer, do barulho eles gostavam. Diziam que não. Mas gostavam. Corriam velozmente como emas e trepavam aos telhados como macacos. E faziam mais barulho. Eu também sabia aqueles “códigos” dos manos, embora me soassem sempre a grunhidos, e por isso ficava na janela atento à confusão da noite. Não era bem uma janela. Também aquilo não era bem uma casa… chamemos-lhe barraca. A barraca tinha um buraco quadrado na parede, feito pelo meu pai com o berbequim que pediu emprestado na obra. Dos lados verticais do quadrado pendiam dois trapos presos com fita-cola. O da esquerda era lilás com riscas pretas e estava roto em vários sítios. O outro castanho, sem riscas. Roto também. Os trapos eram as cortinas. No fundo, as cortinas eram restos dos vestidos da minha mãe que passavam para as minhas irmãs. Sempre era mais prático dar tesouradas que fazer bainhas. Por estarem rompidos é que eu conseguia estar dentro da confusão da rua sem sair do meu quarto.
Lá dentro haviam cinco camas. Somos cinco irmãos: eu, Jessica, Washington, Ussumane e Ana (nunca percebi como ela conseguiu ter este nome). Mas era o único que ficava ali o tempo todo à espreita. Fascinava-me aquele movimento. Quando disparava o distúrbio, crescia-me o orgulho de viver na Zona… Faz de conta que é a J (como no filme). E a minha rua era mesmo como nos filmes. Com os carros e tudo. De grandes marcas, escuros. Alguns brancos. Mas todos com luzes. Muitas luzes. Encandeavam as barracas e para acompanhar o cenário ligavam sirenes. As sirenes sempre foram as minhas favoritas. Abafavam todos os ruídos. Deixava-se de ouvir o tubo de escape da mota do mano Joe, os ensaios do hip-hop dos “C’um Tra Ri Ados”. Até os “grunhidos” eu não ouvia. Mas eles sim. Sempre com os códigos. Aliás, até hoje ainda não sei quem tinha o megafone mais potente; se os manos, se a bófia. Eu estou a dizer bófia mas não gosto nada desse nome. Respeitinho. Polícia. Agentes da autoridade. Se há coisa que eu sempre achei é que lá “figuras de autoridade” todos exibem. Bem me lembro… Sempre me encantei com as botas negras, altas, austeras, com atacadores de se perder de vista. Os bastões. A pistola. À noite não, mas nas rusgas durante o dia, até os óculos de sol apreciava. Na altura cheguei mesmo a estar convicto que um dos requisitos para se poder ser polícia era saber ajustar com perícia os óculos. Aqueles espelhados praticamente colados à cara. Ter o conhecimento de como encaixá-los. Qual o movimento certeiro para se situarem entre os fios de cabelo adequados, ou então, entre que botões da farda se deviam pendurar de modo que alcançassem o devido balanço no peito. Sabemos como são os putos… Muitos filmes. E a minha rua era mesmo como nos filmes. Se o meu grande momento era fingir-me barricado, o deles concentrava-se em expulsar o intruso do terreno. Vejamos as coisas assim; eu como um elemento passivo, e eles, sem dúvida, o activo.
Sabe, até lhe podia contar da minha tia que emigrou e ganhou um prémio lá fora. Mas disse que adora histórias de meninos; azuis, guardiães de ovelhas e sei lá mais o quê. Ainda por cima garantiu que à noitinha vou ser notícia…
eu cá por mim posso continuar.
Não me chame é de bófia e não garanto que os trapos ainda lá estejam no buraco para os filmar.
Mas conte-me da reportagem… Como é que era mesmo? O homem polícia que em menino tinha tudo para…?
PATA DIREITA
30 de março, 2004
APONTAMENTOS DO DIA
Tempo:
Os pára-brisas do meu carro funcionaram durante a manhã, bem como o guarda-chuva enclausurado no porta-bagagens visitou o dia. Os óculos de sol fitaram-me ironicamente:
- Esta gaja não bate bem; ora tira-nos ora põe-nos.
Ainda bem que é Primavera.
Seres:
1) Indivíduo a “praticar” jogging no IC19 com fato de treino azul fluorescente. Desconfio que os profissionais elevem assim os cotovelos acima da cabeça. Percebi a existência da palavra «troglodita» nos dias de hoje.
2) Indivíduo a mijar na berma da 2ª circular – percebi também o que faz ali a árvore naquele projecto de jardim – de olhos fixos nos carros, como se estivesse a assistir fórmula1. Fetiches?
Eu:
Dei um choque quando entrei no carro. Outro choque quando fechei a porta. Esqueci-me do telemóvel e voltei a casa. De novo ao carro. Novos choques. Ao abrir o carro, ao fechar a porta. Quando estacionei o carro no meu destino, nova (des)carga eléctrica. Dupla. E há pouco estacionei à porta de casa. Não dei choques. Esqueci-me do telemóvel no carro. Até já.
PATA DIREITA
28 de março, 2004
OUT OF THE BLUE (OU VICISSITUDE DO VÍCIO)
Funga repetidamente enquanto o indicador e o polegar esmagam um cigarro no cinzeiro. O café ainda está quente. Soam acordes de uma guitarra escapulidos do rádio. Ela trauteia o início da música: “Can you tell me why…”. Ao som da melodia e de um tremer de pernas frenético, percorre na memória as últimas horas, desde a sua saída de casa.
De madrugada abandonou a alcova para acarinhar a embriaguez habitual. «Cláudia, já nem pareces a mesma com quem casei», disse-lhe, enquanto ela atirava bruscamente o seu braço para cima do lençol com cheiro a alfazema. Uma vez mais ele tentara demovê-la. Uma vez mais em vão. Ficou ali, estático, só – um pijama azul-turquesa apoderava-se de toda a essência da alfazema.
(Como poderás mostrar a cara a alguém?)
Talvez se emborcar uma garrafa de licor, pensa ela.
(Cláudia, sabes bem que qualquer vinho rasca teria o mesmo fim. Não te faças de finória.)
Nervosamente agora encara o pulso esquerdo. O mostrador do relógio teima em acelerar o tempo. A mesma sensação que tivera de madrugada, quando se inflacionou a secura pelo líquido volátil – extinta mal encontrasse as chaves do seu carro. No mesa do hall não. Na bolsa não. Nos bolsos do casaco não. Na casa de banho não.
(Deixaste-as lá na outra noite que adormeceste na banheira, hoje não.)
Acabou por levar o carro dele. Primeiro que acertasse com a chave… apercebeu-se do travão de mão ao acelerar, e não arrancou à primeira.
(Cláudia, mete a primeira… à segunda não arrancas.)
Os nervos em franja reclamaram por um bafo. Uma fumaça. Ambas as palmas suadas; a da mão esquerda desorganizada amparou metade de um quarto do volante, a direita escorregava pelo porta-luvas caótico. O seguro. O manual do carro. Uma gravata do Simão. O panfleto com a reunião de pais no colégio.
(Procura o maço por debaixo do assento. Adormeces tantas vezes no carro…)
O jornal só surgirá amanhã de rompante debaixo da sua porta. Abaixo do cabeçalho estará escarrapachado um título bem negro, possivelmente a itálico e sublinhado. No intelecto constrói o título, emaranha a própria notícia. Porque sabe como tudo aconteceu.
(Tens a palavra «escândalo» como garantia.)
Lembra-se quando no pé aplicou toda a força, este por sua vez no acelerador. Uma força originada pela raiva e pelo prazer. A raiva da vida deturpada; pelo toque da bebida nos rebordos dos lábios, pelo doce escorrer na garganta, pelo quente, vibrante, harmonioso, completo, calmo e histérico, vício da bebida. A raiva por sentir prazer. Acelerou! Talvez por isso, esquecera a existência dos faróis. Talvez por isso assustou-se com a pancada. Talvez por isso atropelara um homem. Ou talvez por nada disto, mesmo praticamente à porta de casa, abandonasse um corpo – ainda quente, envolvido em gemidos – na negrura completa; do asfalto, da madrugada. Abandonou-o com um rasto de gases do tubo de escape. Atropelou. Fugiu.
(E os miúdos Cláudia? Não há explicação e alcoolemia não passa de um algarismo. Não tem cara.)
Sem saber bem como – ainda está toda desorientada – entrou na loja de conveniência e não comprou uma garrafa. Pediu um café.
O café agora já está frio. Com um gesto trémulo aproxima a manga do pulôver de caxemira, passando-a disfarçadamente pelas narinas. O fungar não se vai embora.
(Até os lenços de papel esqueceste no carro.)
A sua visão distorcida alucina salpicos de sangue; sangram olhos incógnitos, as paredes, mesas, sangra a chávena com café. O mesmo sangue que deixou na estrada. O mesmo sangue que seca no pára-brisas. Nem se lembra onde descansa o carro, mas, de certeza, o sangue lá está, bem como o corpo ainda jaz na estrada.
(E os miúdos Cláudia? Quem vai tomar conta deles, se tu não te aguentas mais de três horas em pé?)
Levanta-se da mesa para pagar o café. Enquanto esmaga mais um cigarro simultaneamente recorda o farrapo azul-turquesa no pára-choques, preparando-se para a chegada da polícia a casa.
- O carro do seu marido é que o atropelou…
A música do rádio chega ao fim: “Mama's trippin' daddy's slippin' “
PATA DIREITA
27 de março, 2004
SUSTO
E vou escrever que não concordo.
Ninguém me tira
esta indignação apenas minha.
Peco pela ira;
grito e esperneio
revolta, repulsa, rebeldia…
Não cedo
Não me canso
Mas
e se o mundo estiver certo e eu errada?
PATA DIREITA
25 de março, 2004
ABUSA DAS PALAVRAS SEM AS USAR
Deixa-me rir
Essa história não é tua
Falas da festa, do Sol e do prazer
Mas nunca aceitaste o convite
Tens medo de te dar
E não é teu o que queres vender
Deixa-me rir
Tu nunca lambeste uma lágrima
Desconheces os cambiantes do seu sabor
Nunca seguiste a sua pista
Do regaço à nascente
Não me venhas falar de amor
Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira
Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
De que que falas com tanto apreço
Esse curioso alambique
Onde são destilados
Noite e dia o choro e o riso
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
Ser o teu mestre só por um instante
Iluminar o teu refúgio
Aquecer-te essas mãos
Rasgar-te a máscara sufocante
Pois é, pois é
Há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor
O que vai dizer Segunda-Feira
Deixa-me Rir – JORGE PALMA
Esta música faz-me sempre sorrir. Um sorriso irónico, admito. É curioso como as pessoas muitas vezes falam tanto sobre certas coisas, muitas vezes com explicações exaustivas e não dizem absolutamente NADA. Se a mentira faz-me alergia, outra coisa que prefiro é que se calem em vez de libertarem palavrinhas ao ar secas de conteúdo – não me interessa absolutamente nada a qualidade dos vocábulos, nem se o conhecimento da Língua Portuguesa é abrangente ou não. Não fales do que não sentes.
PATA DIREITA
24 de março, 2004
DEIXA AS TUAS ASAS EM CASA PARA O VOO CONTINUAR
Existem dias reais. Dias em que falamos por onomatopeias, sentimo-nos ferrugentos e ao toque somos mornos. São dias incolores e transparentes, insípidos – não são inodoros como é a água – mas que cheiram a sono. Acordamos assim; sem melancolia, nem mágoa, ausência de dor ou saudade. E desembrulhando este acordar, esquecemos os sonhos e varremos as ramelas. Sabendo que, no fundo do embrulho do nosso alvorecer permanece aquela forma bruta e genuína de «tristeza». Levantamos voo para a nossa existência assim.
Mas há quem não te conheça. E te estranhe por não teres raiz. Insistimos em não deixar as asas em casa e levamos-te a passear num mundo ingénuo, que te acha inapropriada como se precisasses de convite para surgir. E perguntam o que se passa… nos interrogam sobre causas, motivo, razões! Querem respostas! Só temos perguntas. Porque há dias assim. Dias com bafo morno, aspecto enferrujado, soam a onomatopeias, sabem a água e cheiram a sono. Dias quase irreais…
E regressamos ao ninho. Choramos sozinhos não por vergonha. Provocas medo e ansiedade por seres só isso e tanto. Por seres a mais triste «tristeza»; solitária sem ter saudade, profunda sem conhecer dor, não há mágoa que te magoe ou melancolia que te faça companhia. Não sei se soprada pela corrente de ar ou assustada pelo barulho da chuva te refugias nele, no outro… em mim. Todos falaram e ninguém tentou ceder um ombro para ouvir as onomatopeias que causas aqui, ali… assim.
Há dias demasiado reais para as nossas asas irreais. Deixa as tuas asas em casa quando se extinguir este demorado amanhecer. E regressaremos ao mundo assim.
PATA DIREITA
23 de março, 2004
AL BERTO
Os Amigos*
No
regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias
tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite
prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume
ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência
*Al Berto
PATA ESQUERDA
22 de março, 2004
LÊ-ME UM POEMA (II)
Vangloria-te de mim junto dos teus amigos gabando-me como um objecto, partilha ter-te iludido através de palavras mansas e igual a mim tinhas todas as vizinhas do prédio, acrescentando que se tal previsses nem te davas ao trabalho de me conhecer na faculdade. Explora a minha mania de atirar à cara assuntos fora de validade sempre aliada a uma capacidade de te surpreender cada vez mais pela negativa, surpreendendo-te mais ainda o desempenho contínuo do papel de vítima, ao qual respondes refinadamente com uma única palavra como se fosse monossilábica
- Dra ma…
carregada de ironia ácida.
Liberta esse vozeirão encarando-me como uma comédia real, repete vezes sem conta que o cartão de crédito não é recarregável por magia, ou provavelmente considero-me embaixatriz mesmo não tendo força de vontade e só tu planeias tudo anulando o meu empreendimento de fazer-nos viver um mundo cor-de-rosa. Trata-me como essas mulherezinhas que engolem desculpas esfarrapadas e esquecem tudo. Enche-me os ouvidos que os teus já não suportam perguntas sem interesse equiparando-me a uma ema embora com cinco dedos em cada pé, culpa-me por correr de um lado para outro nunca estando lá para ti e mesmo assim queres-me sempre a teu lado. Trata-me como se eu fosse uma menina.
Bate a porta com toda a tua força ao saíres de casa e quando telefonar logo a seguir desliga-me na cara.
Sente a autenticidade da vida ou não são assim todas as histórias reais? Sente-me como o teu Alguém porquanto para mim esta fantasia é real, para ti nunca deixou de ser fictícia e eu quero um conto de carne e osso.
Porque quando o telefone tocar vou saber que ainda continuas aí, não por dizeres que vens ter comigo, nem a desculpares-te por estares a passar em frente à minha porta com duas horas de atraso – tu nunca visitaste a minha casa e eu nunca me posso aborrecer com os teus atrasos. Tal como as crianças pedem uma história ao chegar a casa, procuras o teu refúgio, não em mim mas
- Lê-me um poema teu
em vocábulos – o único axioma que buscas na mulher que sou. E uma vez mais vou querer-te encarcerado na minha pele e não em palavras escritas que faço prisioneiras, embebidas em grades brancas feitas de papel.
Porque daqui a pouco tu telefonas e não te leio esta elegia agora terminada, deixo-te uma sobre pintassilgos para também tu saberes que eu ainda continuo aqui.
PATA DIREITA
21 de março, 2004
LÊ-ME UM POEMA (I)
Deixa-me a tua música a tocar no quarto para eu saber que ainda continuas aí. Crava riscos desmedidos no metalizado do meu carro, abusa da tinta e mancha as paredes da sala de roxo – daquela tonalidade que detesto – e arranca os quadros grudando por cima dos pregos esses posters ridículos do rally em que tu e os teus amigos finalmente entraram, acumula o lixo na entrada da cozinha e por favor não baixes a tampa da sanita. Espalha as peúgas pela casa; esquece-te de uma debaixo do tapete para poder escorregar nela, a outra esconde entre o colchão e a tábua da cama para ficar ainda mais fula por nunca conseguir colocar-te na gaveta o par.
Faz com que a casa se torne um espaço demasiado apertado onde se arruínam coisas, onde se emaranham os nossos domínios, e tudo o que é meu é teu e tudo o que é teu é meu nunca chegando a ser meu nem teu, nem a casa que é uma pocilga. E estoures da cabeça com o azul vascular a dilacerar entre a cabeça desvairada e o tronco desnorteado por já não encontrares latitudes nem longitudes ou seres incapaz de traçar um mapa porque a bússola nutre-se de pó algures na balbúrdia da dispensa, e os bafos relaxantes no cigarro são irrealizáveis porque os cinzeiros estão a abarrotar (não chegamos a consenso de quem era a vez de os despejar) e com o maço alcançaste o cimo de uma montanha de papéis que nem sabes se são meus ou teus, nem para o cimo de papel de que montanha foi.
E depois de acabares com a casa, concentra-te em mim.
Refila que mais valia teres continuado a frequentar as ladies night das quartas-feiras e nem a lasanha de frango vale o esforço, muito menos teres de aturar a minhas inconstantes vontades; revestir ou não revestir com azulejos o chão ou talvez apenas uma barra de azulejos nas paredes, dúvidas demasiado extenuantes mesmo quando segregadas pelos meus lábios de modo vaporoso. Que não era nada disto que querias ao partilharmos o gosto por velas e eu decidi comprá-las de todas as cores, feitios e cheiros que te causam indisposição quando as acendo juntamente com o incenso e ires até à casa de banho, onde dificilmente reténs o vómito porque os últimos azulejos exibem um verde amarelado com riscas castanhas desequilibradas – achei que condiziam com o pormenor das toalhas – e quando lá vais apetece-te varrer as paredes, sendo a única vez que te veria agarrar na vassoura.
(continua…)
PATA DIREITA
20 de março, 2004
KÍRIE
Por geração espontânea – um e mais outro, agora dois de uma vez só – multiplicam-se em meu redor asfixiando, ensurdecem-me os rostos que não vêm sós; trazem bocas, soltam línguas ousadas e frenéticas detentoras de
- Oh
- Ah
- Tsss… tsss
sustenidos ou bemóis errantes na marcação do compasso, fugidos de cordas vocais. Escuto estas presenças multiformes mas concentro-me na tua de murmúrio mudo, sem nota ou tom. Quando era audível – “era”, não foi assim há tanto tempo – toda a tua voz estava canalizada para mim, a prevenir-me
- Cuidado
contra toda a tragédia, contra o perigo, a agressão, o possível acidente.
Deves estar a recuperar-me na memória a encarnar uma bola de flippers impulsionada pela energia da pancada, rolando ao longo do carro, entrando e batendo em vários alvos, alterando a chapa metálica daquela carripana que levou sumiço. Foi uma pontaria desenfreada, só que a diferença em relação ao jogo, é que nem havia recorde de pontuação, sendo isso até secundário, o único ponto (fraco) aqui analisado
-Oh
-Ah
-Tsss… tsss
ao extremo do pormenor é a contusão que me transplantou da verticalidade para uma aterragem horizontal de barriga para baixo. Talvez os chuviscos vidrados envolvidos na minha cambalhota à retaguarda – nem atenuada pelo pára-choques – embaciaram a tua lucidez?
- Francisco…
Começas mesmo a assustar-me, e não apenas pela tua resposta suprimida ao meu chamamento possibilitar a aliança quase perfeita entre uns lábios estanques e a atitude estática. Onde estás seguro e confiante, munido de sentido prático e
- Uma coisa de cada vez, lá estás tu a complicar
racionalidade brilhante, com a auto-estima serena, defendendo que o controlo não é uma ilusão? Isto mais parece uma missa; os fiéis todos presentes (autênticos estranhos entre eles e para mim) e “O” invocado
- Senhor, tende piedade de nós
- Cristo, tende piedade de nós
- Senhor, tende piedade de nós
ausente, sob a forma de estátua, com a expressão fixa mesmo durante a sua solicitação. Não te perturba o ruído esdrúxulo causado pela miscelânea de vozes, buzinas, tubos de escape? Reage, percebo pelo menos que cego não estás; penetras-me com esse olhar petrificado na minha direcção. É o contorno do meu corpo que cá vêm desenhar a giz branco não tarda nada, enquanto tu não te mexes…
- Francisco…
eu é que não me devo mexer.
Medito com receio se tudo não é redutível a um flash do pensamento… devo estar a atribuir ao tempo velocidades demasiado rápidas, delito assumido pela crendice de que desta vez não me ditas a frase acertada, a preocupar-me como era o meu Francisco
- Estás comigo, estás com Deus
antes de ser acolhida pelo alcatrão – “era”, se calhar não estás calado assim há tanto tempo. Precipitei-me. É isso, precipitei-me ao julgar que te tinhas abstraído ao ver-me deitada sobre uma substância negra e pastosa, sem fuga possível destes corpos hostis que
-Oh
-Ah
-Tsss... tsss
me circundam com estúpida curiosidade, como se o meu corpo é que representasse o desconhecido.
(Quem são eles?)
Meus conhecidos são esses movimentos; o muscular franzindo a tua testa seguido do anatómico que te arremessa o diafragma, na antecipação duma inspiração mais forçada e do erguer de uma só sobrancelha, sempre finalizados com as tuas palavras seguras, os meus pontos cardeais. Sei que é agora.
- Francisco…
-Eu não sei o número do 112.
PATA DIREITA
19 de março, 2004
...
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crêpe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
Funeral Blues - W.H. Auden
18 de março, 2004
É QUE HOJE ACORDEI E LEMBREI-ME QUE TENHO UMA BOLA DE CRISTAL
Não falei contigo
com medo que os montes e vales que me achas
caíssem a teus pés...
Acredito e entendo
que a estabilidade lógica
de quem não quer explodir
faça bem ao escudo que és...
Saudade é o ar
que vou sugando e aceitando
como fruto de Verão
nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes também
que num dia maior serás trapézio sem rede
a pairar sobre o mundo
e tudo o que vejo...
É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é folha de papel
Nela te pinto nua
numa chama minha e tua.
Desconfio que ainda não reparaste
que o teu destino foi inventado
por gira-discos estragados
aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico
de sincronização do coração
são leis como paredes e tectos
cujos vidros vais pisando...
Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso do teu gesto mimado
e à palma da tua mão...
É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é folha de papel
Nela te pinto nua
Numa chama minha e tua.
Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...
É que hoje acordei e lembrei-me
Que sou mago feiticeiro...
...nela te pinto nua
Numa chama minha e tua.
Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguém
Se não te deste a ninguém
magoaste alguém
A mim... passou-me ao lado.
Toranja – Carta
…porque esta música fala.
…porque estas palavras são música.
PATADIREITA
17 de março, 2004
TENHO UMA BOLA DE CRISTAL... E AGORA ?!
Há pouco um amigo meu enviou-me este mail:
“Nem quero imaginar o tempo que alguém deve ter gasto para descobrir isto...
Sabiam que a seguinte frase:
SOCORRAM-ME SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS «-----
Lida da direita para a esquerda
(LENDO AS PALAVRAS AO CONTRÁRIO «-----), é exactamente a mesma coisa???”
Além de achar curioso, fiquei a pensar o que leva «alguém» a “fazer tal descoberta” (até pode ter sido uma coincidência… obras do acaso ou não).
Depois, o pensamento avançou tentando imaginar o tipo de pessoa – não, hoje não andei nos copos. Acabei por imaginar um ser magricela, cabelo escuro oleoso, óculos “fundo de garrafa”, usando um daqueles aparelhos para os dentes que mais parecem peças robóticas.
Ele agora olha para a relva do jardim; calcula quanto cresceu desde a hora do jantar. Todas as noites, senta-se à mesa precisamente às 19:56 – nem um segundo a mais, nem um a menos. Na mão direita agarra um saco de comprimidos. Há noite faz frio, não vá o diabo tecê-las. Se se constipar, toma logo ao primeiro «atchim» dois duma vez.
Posso acrescentar que a mãe é marroquina (sim… pareceu-me um camelo a guardar a barraca) e o pai brasileiro, sem dúvida. O velho grita todas as vezes que o vê agachado sobre as ervinhas:
- Pô meu filho, cadê gatinhas na relva?
O ser por detrás das lentes de garrafão, foi concebido em Marrocos, mas acabou por ir morar numa favela. Daí a frase “socorram-me subi no onibus em Marrocos”.
Mas por hoje chega de viagens mentais alucinantes. Descanso à minha bola de cristal inserida algures no meu cérebro!
Enfim, lá continua ele no jardim. E aqui continuo eu no pc.
PATA DIREITA
15 de março, 2004
QUIPROQUÓ
«Primeiro fomos nos sentar para a esplanada. Claro que mesmo sendo quase onze e meia da noite pediu um café e acendeu de imediato o cigarro. Aliás, ele nunca se esforça e se priva do cigarro. Incomoda-me o cheiro, o sabor, até a imagem daquela mão a agasalhar o cigarro!»
Entrou calmamente e apoderou-se do puff. De cabeça estendida para trás e braços pendentes deixou as pontas dos dedos roçarem na alcatifa e desabafou.
«Logo que parei em frente ao portão da casa dela, de imediato balbuciou qualquer coisa imperceptível – talvez tenha sido melhor assim – e saiu do carro como se fosse apanhar o metro. Só não deve ter corrido devido ao tamanho do salto das botas! Surpresa desagradável ou a vais defender?»
Continuou a agitar as mãos desenhando riscos desordenados na tela invisível do ar.
«Não falava, não dizia nada! Zero, niente, nichts, rien! Eu não estava nos meus melhores dias… não me apetecia iniciar a conversa. E ele… por ele possivelmente desenrolava-se aquela meia hora antes da sessão do cinema naquele cenário senil. É como tu costumas dizer Isabel! Cenários decrépitos são mesas de cafés e restaurantes com casais cujas únicas palavras que trocam é com o empregado, contribuem para o zumbido atmosférico utilizando talheres e movimentando copos, e após refeições mímicas rematam com um “vamos pedir a conta?”.
Irritou-me aquele silêncio doentio! Não era bem um silêncio, porque dentro de mim sentia gritos, autênticos berros!!! Acabei por não gritar, mas fui eu que falei.»
Virou a cabeça para a esquerda e com os olhos esgazeados disse:
«Tenho aqui dois bilhetes intactos no bolso; inutilizados sem terem sido estreados… Faltavam apenas cinco minutos para o início do filme. “Tens toda a razão!” – disse-me ela!?!? Cinco minutos apenas! Bastaram-lhe para decidir-se em não ver o filme, levantar-se da cadeira, dirigir-se para o carro e fazer um voto de silêncio forasteiro para mim. Pensei em a abraçar, nem a toquei.»
E a agitação das mãos alastrou-se pelo corpo e para a cadeira.
«Disse-lhe que não era bom sinal estarmos ambos calados! Que não sabia se o podia chamar de amigo! Retirei as mãos de cima da mesa para evitar qualquer tentativa corporal de ludibriar o peso daquela situação. Queria reacção! Ele não gostou das palavras, muito menos dos gestos. Obtive reacção! Retratou a minha imagem e afastou os cotovelos da mesa. Fixou um olhar arrefecido como quem diz “assim já não ME apetece, vamos embora”. Partiu-se o galho que evitava o abismo… “ainda TE apetece ir ao cinema?” – perguntou-me.»
Voltou a virar a cabeça mas agora para a direita.
«Antes de se levantar lembro-me de ela disparatar. Criticou-me, criticou a minha companhia. Podia ser do dia do mês!? Colocou uma voz áspera e afirmou: “não me parece que sejas indicado para estar a meu lado quando me sinto em baixo”. Soou tudo a uma sucessão de delírios. Agora pensando bem. Soou tudo a muita coisa. Mas não falei. Agora pensando mesmo bem. Só ouvi, nem falei! O silêncio do início de noite acabou afligido por aquele monólogo demasiado cru.»
Houve uma quebra de riscos desordenados no ar e pousou as mãos sobre a mesa.
«Deixou-me em casa e desejei-lhe “boa noite”. Abri e fechei a porta do carro como um autómato. E ele… que fez? Simplesmente não abriu a boca. Não me chamou. Não desligou o motor. Não me puxou nem me tocou. Não fez um único movimento… olhou e deixou-me ir. E todas estas coisas, explicas-me?»
Inclinou-se para a frente e esfregou ambas as mãos por toda a cara.
«No início da noite estava com receio de adormecer no cinema. Fiquei aliviado quando ela corporalizou o pensamento de primeiro irmos sentar na esplanada. Pedi logo um café e acendi um cigarro. Tinha que me esforçar para me manter acordado! E para quê? Será que mereço perceber?»
Levantou-se e deixou o frenesim da chegada colado na cadeira.
«Queria só um abraço.»
Deitou-se ao comprido no puff e largou um soco na alcatifa.
«Ela quer que eu me afaste.»
PATA DIREITA
12 de março, 2004
FOI TÃO BOM PARA TI COMO FOI PARA MIM?
Eu não posso afirmar que para os homens a sexualidade está concentrada no orgasmo. Não. Longe de mim tal pensamento. Aliás, quem é que se dá ao trabalho de se concentrar em algo praticamente garantido?
No entanto, posso afirmar que o orgasmo feminino é encarado muitas vezes como um “bicho-de-sete-cabeças”. Deveras mais interessante, são os tipos de comentários masculinos:
- Foi só uma vez, sabes que é muito complicado logo à primeira
(Engraçado… a partir de qual vez é que já não é tão “complicado”?)
- Ela não chegou lá, mas gostou na mesma
(Da mesma maneira que quando tiveres quase lá, ela levanta-se e vai beber água… de certeza que vais gostar também na mesma)
- Eu acho que sim… parece-me que “chegou lá”
(Achas?!? Recuso-me a comentar.)
- Deve ser frígida
(E tu deves ser precoce!)
And so on….
Pois bem, meus amigos parem de se desculpar e inverter as culpas. Esforcem-se. E …pequena dica; quando falha é como o Sérgio Godinho canta:
ELE:
Hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco, hoje soube-me a pouco.
Passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco.
ELA:
Hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto, hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco!
PATA DIREITA
11 de março, 2004
OLLIE O ENIGMA DA NATUREZA
Um chimpanzé chamado Oliver tem abismado e surpreendido cientistas desde há trinta anos para cá. Ele é fisiologicamente fora do comum, com poucos pêlos no peito e cabeça, e um queixo e orelhas com um formato diferente dos chimpanzés comuns. Mas, mais incrível ainda, Oliver comporta-se muito como um ser humano, demasiado mesmo…

Oliver nasceu no Congo e foi vendido para os amestradores de animais sul-africanos
Frank e Janet Burger no começo dos anos 70. Desde a sua infância ele já parecia não se misturar com os outros chimpanzés, preferindo ao invés disso a companhia de humanos. Ele sempre andou erecto e aprendeu a usar a casa de banho. Os seus donos descobriram que ele gostava de tarefas como por exemplo preparar a comida dos cachorros da família. Oliver também gostava de descansar sentado a ver televisão e a beber whisky cola. Quando ficava sexualmente excitado, não se interessava pelas fêmeas chimpanzés, ele ia atrás da senhora Burger ou de qualquer outra mulher que visse pela frente. A libido de Oliver fez com que os Burgers se vissem forçados a vende-lo, pois houve um dia em que Oliver foi longe demais. Quando vinda de mais um longo dia de trabalho a senhora Burger chegou a casa e deparou-se com um chimpanzé, louco de tesão, que rapidamente a agarrou pelos cabelos, obrigou-a a dobrar-se e montou-a.
Assim depois desta tentativa de violação Oliver foi vendido a um amestrador americano, e deste modo começou uma carreira de chimpanzé amestrado viajando por aí, demonstrando todo tipo de comportamento inteligente. Chegou a ser promovido como "O Elo Perdido" e havia muita especulação sobre a sua composição genética. Espalhavam-se os rumores de que ele era um mutante, ou até mesmo um híbrido, metade homem e metade chimpanzé, talvez o resultado de alguma experiência secreta. Algumas reportagens diziam que Oliver teria 47 cromossomas, um a menos que um chimpanzé, um a mais que um humano.
Em 1997, uma série de testes genéticos finalmente resolveram a questão do que exactamente Oliver era feito. Cientistas especialistas em genética da Universidade de Chicago determinaram que ele é simplesmente um chimpanzé, não um elo perdido e com certeza não um híbrido. Ele também possui a contagem normal de cromossomas de um chimpanzé: 48. "Portanto, o que disseram sobre ele ter 47 cromossomas foi um engano ou mais uma tentativa de enganar o publico", disse o Dr. David Ledbetter, que foi responsável pela análise. Cientistas pretendem fazer mais testes para tentar explicar o aspecto e comportamento fora do normal de Oliver. Outros chimpanzés que caminham erectos apareceram em outros lugares, sugerindo que Oliver pode ser parte de uma nova espécie. Enquanto isso, o macaco de meia idade aposentou-se e foi descansar no santuário "Primarily Primates" no Texas, onde rapidamente se instalou e se espera possa vir a ter um final de vida normal e pacato.
PATA ESQUERDA
10 de março, 2004
OLD TRAFFORD, 9 DE MARÇO DE 2004
Nem mais nem menos: empate 1-1! O mesmo que gritar «VITÓRIAAAAA»!
Resumindo:
Costinha marca em cima dos 90min ------» Delírio dos dragões -----» Náuseas e mau estar detectados entre 65 mil adeptos ingleses -----» Manchester United eliminado -------» FC Porto nos quarto-de-final da Liga dos Campeões
Aquelas camisolas vermelhas exibindo Vodafone todas desoladas a saírem do campo, e eu a perguntar:
- How are you?
PATA DIREITA
8 de março, 2004
DIA DA MULHER
Que me deixem passar primeiro pela porta sem queimar soutiens
Distraio-me com os teus pequeninos dentes demasiado brancos, intercalados com espaços onde dentes maiores vão morar e chamo-te
- Menina
baixinho. Talvez tão baixinho que nem ouviste e continuaste a brincar. Colocas os braços do tamanho do meu antebraço na cintura, e bates a ponta do pé do tamanho da minha tartaruga, com uma pose de senhora que ainda não és. Mas vais ser. Chamei-te baixinho para te dizer que essa pose vai ter corpo. Um corpo de mulher que já és, mesmo que não o sintas e eu sei que nem o sabes. Queria te dizer para não fazeres esse ar amuado – eu vi que os meninos não te deixaram jogar à bola – nem para ficares triste. As outras meninas foram todas para casa e no recreio ninguém quer brincar com as bonecas, mas amanhã voltas a encher os tachinhos com a comida de lama, pauzinhos, folhas para o aroma e umas pedrinhas para o sabor.
Sabes, num amanhã mais distante, não vais «fazer beicinho» quando os teus amigos disserem «não queres igualdade?», quando lhes pedires para trocar um pneu ou ajudarem-te a subir as escadas do prédio com dezenas de sacos de supermercado. Com essa pose que já exibes no pátio da escola, vais saber explicar que não queres igualdade, porque igual já és (e não sabias fazer malabarismos com a bola, mas eles nem sonham até hoje a receita da “sopa de lama”). Que não queres igualdade, porque sentirás o teu corpo e saberás que é diferente; o teu rosto não arranha, a tua pele é mais sedosa, as mãos delicadas e macias, as curvas delineadas são da tua sombra, entre o pescoço delgado – onde não se entupiu nenhuma maçã – e o teu umbigo percorre-se um caminho nu de pelugem. Não conseguirás sozinha tirar o caixote da última prateleira, nem dar o soco que o teu vizinho do rés-do-chão merecerá sempre que com ele te cruzares, e este achar de extrema masculinidade citar frases apreendidas de madrugada, ao visionar o canal que a mulher que dorme nem nos seus sonhos vê descodificado.
Agora os teus dentinhos voltam a aparecer, logo que ouviste
- Maria
a tua mãe chamar-te, não baixinho como eu. Distraio-me com a tua correria desenfreada para te aninhares nos braços dela. Ela está-te a contar que hoje está muito cansada do dia no trabalho, mas logo que cheguem a casa
- Só para a minha menina
faz a mousse de chocolate. Não te preocupes, eu sei que à hora que o teu futuro vizinho do rés-do-chão visiona escarrapachado no sofá novas técnicas de abordagem, ela estará a engomar as asas de borboleta para a tua peça do Dia da Árvore. Ela não se esquece, só que antes tem que arrumar a casa; pôr a roupa a lavar, a secar, preparar o jantar – quer fazer o cozido que o teu pai tanto gosta – e colocar a mesa, tirar a mesa, lavar a loiça, mudar-te os lençóis dos ursinhos, preparar-te a lancheira para amanhã levares o almoço, o lanche, descongelar bifes para quando o teu pai for almoçar a casa… mas não te preocupes, mesmo de madrugada ela não se esquece das tuas asas de borboleta.
Antes de correres novamente, atravessando o portão colorido da escola em direcção ao carro, antes de fechares a porta detrás, quero dizer-te que percebi o teu ar amuado preenchido com o bater da ponta do pé. Eu sei que queres igualdade, que queres a diferença. Que nem é uma questão de quereres porque simplesmente é assim. Que as diferenças brotam e acumulam-se numa base e num princípio comum… feito de carne, feito de osso, feito de pensamentos, emoções, feito de humanidade. Quando os meus pés também tinham o tamanho da minha tartaruga, queria que fosse assim. Por isso chamei-te baixinho
- Menina
e nem ouviste. Continuaste a brincar. Não te pude dizer. Mas acho que quando tivermos os dentes pouco brancos, intercalados com espaços onde outros dentes já moraram, ainda vamos continuar a bater o pé.
PATA DIREITA
4 de março, 2004
PORQUE ANTES DO PRIMEIRO NÃO HÁ NADA
Porque antes do primeiro não há nada
Para um olhar à sombra de um boné preto
Para quê perguntar como tudo começou?
Existe, acontece, não é o suficiente? Para o mundo não. O mundo quer saber o quando, o quê, onde, como, o porquê. Quer saber mas não quer ouvir. Finge que quer. O mundo quer sorrisos e lágrimas. E leva com sorrisos (são tão fáceis, não são?). As lágrimas são mais raras, autênticas preciosidades. Correm por dentro violentamente, frenéticas, com silêncios ensurdecedores que arranham, cortam, mas não desaguam nos olhos. O mundo pensa que olha para os olhos. Não olha. Finge que olha. Se olhasse via as lágrimas que não desaguam nos olhos.
Para quê perguntar como tudo acabou?
Há coisas que não acabam. Acabam para o mundo, para nós não. Eu sei que não. Porque quem viu que nunca é demasiado fundo, não esquece. E o fundo do fundo não se esvazia com sorrisos para o mundo nem pelas lágrimas que queimam por dentro. O mundo não sabe nada sobre isso.
Foram sempre dois olhares; quando começou, quando acabou.
Existe, acontece e eu sei que tu também querias que já tivesse sido o suficiente.
Mas se a dor é muito nossa, os olhos também.
Ainda são dois olhares e o mundo nada sabe sobre isso.
PATA DIREITA
2 de março, 2004
HAPPY BIRTHDAY
Parabéns a você
Nesta data querida…
Lá lá lá lá lá…….

Vamos todos dar os nossos mais sinceros PARABÉNS à PATA DIREITA que ontem fez anos.
È verdade é peixes e boa rapariga e eu tenho a sorte de a ter como minha melhor amiga.
Por esta hora lá deve estar ela a comemorar o seu aniversário alegrando desse modo uma discoteca qualquer de “la isla bonita”, ou como é mais normalmente apelidada “pérola do atlântico”.
Assim como com muita pena minha não posso lá estar, venho desta forma juntar-me à festa.
Hope your having the time of your life!!!!
Drink one or more, if you’re generous, for me.
Muitos beijinhossssssss
Fiesta, fiesta
PATA ESQUERDA
26 de fevereiro, 2004
NÃO QUERO SABER O TEU NOME NEM A TUA IDADE
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Álvaro de Campos, Todas as cartas de amor são ridículas
No sótão onde cada um guarda os seus neurónios, existem com certeza teias que emaranham uma série de “macaquinhos”... aliás, como diz uma amiga minha (e eu adoro esta frase) não são macaquinhos na cabeça:
- São autênticos gorilas!
Mas é como se costuma dizer “cada cabeça, sua sentença”. E em questões amorosas os gorilas também existem. E será que com o tempo eles mudam e/ou crescem ainda mais? Uns preferem a/o magra/o, outros as curvas e costas em V, altos, baixas, louros, ruivas, nariz grego, nariz à Batatoon, olhos verdes, um olho de cada cor, pés de chinesas, lábios carnudos... whatever! Cada um tem o seu gosto e existem por aí uns “fetiches” que só ouvidos!
E a idade? Será a idade um factor determinante? Não falo da pedofilia, nem é necessário voltar a referir o quão hediondo é este crime! Falo das relações homem/mulher maiores de idade. Até que diferença é aceitável? Ou é sempre aceitável? (Nada é sempre aceitável, existem sempre gorilas na cabecinha empoeirada de alguém!)
Aqui o que é que conta? A atracção física juntamente com a psicológica? Só a física?
Caso típico:
Homem casado com Mulher (de idades semelhantes); casamento de x anos terminado em divórcio – Homem vive com Rapariguinha que conheceu ainda durante o casamento
Só a psicológica?
Caso típico:
Mãe desesperada com a Noiva do filho (podia ser irmã da Mãe, logo tia do seu filho – que neste caso será marido); casamento vai em frente – comentário da Mãe no casamento:
«Aquela Mulher devia ter vergonha na cara, deu-lhe a volta à cabeça foi o que foi! Ai as mulheres, muita experiência tem aquela, sabe muito! Desencaminhou o meu filhinho...»
Mas depois temos aqueles casos em que a diferença não se acentua assim tanto, por exemplo vejam muitos casamentos... a diferença ronda por vezes 7, 8, 10 anos. Daí a minha pergunta: será que com o tempo os gorilas das nossas cabeças mudam e/ou crescem ainda mais? No tempo dos nossos pais a diferença de idades não tinha o peso que actualmente tem? (Para já não falar do tempo dos nossos avós!)
Hoje em dia, os casais têm idades bastante aproximadas. Talvez porque os namoros seguem a MONÓTONA linha do: namorar, tirar o curso, namorar, acabar o curso, namorar, comprar casa, casar.
Afinal o que é isso de ser ridículo? Será que no fundo se as gajas/os comem gajas/os mais novos ou mais velhos (com diferenças mais acentuadas) não será tudo uma questão de química, atracção (ferormonas em acção!), ou mesmo paixão e por vezes não só emoções mas sentimentos? E se a fulana tal para ti não te atrai, porque além de se chamar Lucrécia Candelária, tem um furinho irritante no queixo; um nome é apenas um nome e o teu amigo “passa-se da cabeça” com buracos debaixo do lábio inferior. E se o teu vizinho tem tudo lá, menos a idade no BI... Um nome é apenas um nome e um número apenas um número.
PATA DIREITA
19 de fevereiro, 2004
CASAS OU EMIGRAS?
No outro dia fiquei surpreendida com a revelação duma amiga minha
- Eu quero casar
não pelo facto de sonhar com casamento nem ter putos traquinas a destruir a casa
(já dizia a Sharon Stone no mítico Instinto Fatal: “vamos f**** como martas, criar putos traquinas e viver felizes para sempre”).
mas pela continuação da conversa:
- Senão casar emigro!
Bem, aquilo fez-me uma certa confusão: casamento ou ser emigrante?!? Eu a pensar que os emigrantes iam à procura de novos rendimentos (ou mesmo de algum rendimento!) ou mesmo em busca de novos horizontes/culturas e naquela frase a miúda deitou tudo por terra! Afinal os emigrantes vão à procura de acasalamento com casório! (Pensando bem os meus dois parentes – tão afastados que nem considero família – casaram na sua “emigração”)
Resta-me desejar-lhe que encontre marido em Portugal ou então emigre para um país que eu ainda não tenha visitado (assim sempre aumento o meu rol de visitas ao “exterior”).
Sim, porque eu ainda faço parte dos que têm fome de novos horizontes e culturas (a outra fome satisfaz-se com o velho e actual cliché: o que é nacional é bom!) e quanto a maridos quero lá saber, mas convidem-me para vos visitar quando forem desencantar parceiros estrangeiros!!!
P.S – Adorava visitar o Tibete; se alguém gostar de olhos rasgados e peles amarelas e desencantar um/a tibetano/a comuniquem, eu sou a vossa “nova” melhor amiga!
PATA DIREITA
18 de fevereiro, 2004
O TRIPÉ
Ultimamente tenho recebido alguns pedidos um tanto ou quanto insistentes ( J’s. isto é para vocês!) QUERENDO parte da gerência deste blog. Isto é, publicarem o que lhes apetece quando lhes apetece.
Tal não é possível, já expliquei a estes meus amigos (sim foram rapazes) que sempre que quiserem e tiverem algo de interessante para publicar basta que me enviem. Desde que goste, terei todo o gosto de impregnar os ditos artigos de lama, bem como chutá-los com a minha pata esquerda direitinhos ao ângulo deste blog e assim marcar o golo.
De resto sempre podem usar os comentários para se expressarem bem como entenderem.
Este blog é composto, como qualquer ser humano normal, por uma PATA DIREITA e por uma PATA ESQUERDA (GAJAS). Dispensam-se as PATAS DO MEIO (GAJOS).
P.S – Ultimamente ouvi dizer que finalmente criaram o SEU blog! (já viram como quando se pensa um b-o-c-a-d-i-n-ho, chegamos lá?
PATA ESQUERDA
13 de fevereiro, 2004
DIA DOS NÃO NAMORADOS – PETIÇÃO
Criticar a questão do “sim ou não” da lógica do dia dos namorados, das “verdadeiras” razões por detrás do 14 de Fevereiro, já era! Cada um é livre de fazer/festejar o dia do tal Valentim (ou não), segundo as suas melhores/piores razões. Whatever!
O queremos hoje abordar é uma outra “ visão” desta comemoração. Ora, que existe o Dia dos Namorados (14 de Fevereiro) já ninguém tem dúvidas, nem muito se pode fazer para evitá-lo. Agora senão podemos evitar, podemos completar! (“Se não os podes vencer junta-te a eles” diz a sabedoria popular)
A ideia é a seguinte: associar na mesma data o DIA DOS NÃO NAMORADOS!
Vimos por este meio, através do “PATAS LAMACENTAS”, iniciar uma petição para o 14 de Fevereiro passar a ser o “Dia dos Namorados & Não Namorados” ------» LINDO! (Já agora também é o dia da Disfunção Sexual e ELA também merece ser recordada!... já que as gajas não esquecem quando ESTA surge, enfim são momentos INESQUECÍVEIS)
Para assinarem esta petição e assim em cortejo feliz e contente nos podermos dirigir para a Assembleia da República, pedimos aos interessados nesta proposta que deixem o seu comentário, bem como o respectivo estado civil (para nos facilitar as “contas” entre as proporções de casais e descasais).
Propostas para esta festividade:
- Lugares onde apenas “Não Namorados” podem entrar (já que nesta data em determinados sítios só NAMORADOS entram) -----» assim evita-se tentativas de acasalamento entre pessoal comprometido, o que aumenta seriamente as probabilidades de “marcar pontos”… (enfim vocês percebem)
- Merchandising direccionado para este “público”; exemplos de livros pertinentes
“As 100 melhores deixas para o/a deixar KO”
“A fuga perfeita após one night stand”
“Faça você mesmo as suas ferormonas”
As ideias e propostas são imensas mas preferimos ouvir a tua opinião por isso METE AQUI A TUA PATA!
Have a f*****g good Dia dos Namorados & Não Namorados & Da Disfunção Sexual!!!
PATA DIREITA & PATA ESQUERDA
11 de fevereiro, 2004
INTRUSO ÍNTIMO
Eu não me lembro como tudo começou, nem podia; o Renato saltou o prólogo
- Tinha que me libertar
e possivelmente os primeiros capítulos mesmo sendo ele o meu melhor amigo
(ele não tem melhor amigo, tem amigos)
também não me lembro em que dia deixou de apitar no telemóvel as suas mensagens características; ele não confirma coisas com “ok”, acrescenta e confirma
partilha dúvidas momentâneas e remata com
“P.S. ok, às 17h puto”
(Ontem a mensagem só tinha o P.S.)
- Consegui
(ele estava radiante, cada vez percebia menos…)
tinha dito adeus àquele que via
- Acabou-se
e nem o lacrimejar provocado o deteve; sufocava-o aquele olhar, era constante, em demasia, por isso sofria
- Não me sentia bem
a solidão ilusória
havia sempre mais alguém, encontravam-se no amanhã e no dia a seguir
- Todos os dias a mesma coisa
Desejou uma chuva de fumo
- Queria desaparecer
(continuou um alvo fácil; veio a chuva, translúcida)
a fuga era impossível, prometia-lhe que não oferecia o abandono e o Renato queimava e somava por dentro mais dor,
repetia-lhe que
- Tudo acontece por uma razão
(aquelas palavras carregavam uma fonética agoniante, insuportável!)
mas alguma coisa aconteceu
- Matei-o Hugo! Matei
(o Renato confessou-se num suave sussurro)
antes avisou-o
- Acabou-se
de que nada adiantaria correr mais depressa, não era um jogo e o outro acabou sem saída
sentiu-se num cavalo a galope;
- Sinto-me livre
o vento contra os medos, o tempo com duração de aplausos únicos e secos, um sabor indecifrável na boca
tornou a avisá-lo
- Acabou-se
para não se mexer, não havia saída
- O choro alivia
foi recompensado com lágrimas, sabia que o outro tinha direitos ao reclamar
- Foi complicado
o seu cuidado, mas
simplesmente tinha acabado com ele, nada mais havia por descobrir
- Acabou-se, sinto-me bem
(era o que ele queria fazer, seria pecado se se sentia bem?)
quando e porquê o outro apareceu não sei, nem podia, o Renato não me contou
- Consegui
sei que algum dia faz cá uma visita, não vai querer saber como sou, quer-me anular; vem à conquista das minhas forças numa ânsia incessante e chegará faminto, tentando roer-me por inteiro
no dia em que aparecer dentro de mim traz a luta, deve ser tão parecido comigo como era com o Renato
- Já não és o mesmo
só ele o podia fazer, o outro morreu por ser dele
por ser ele
- Acabou-se
- Sinto-me livre
- O choro alivia
tinha dito adeus àquele que via… ultimamente no espelho
o Renato está de volta, só ele: o meu melhor amigo
(aquele que só tem amigos, sem piores ou melhores).
F.
9 de fevereiro, 2004
PELOS OLHOS TE SINTO (OU SIMPLESMENTE LAMECHAS)
Tinhas uns olhos verdes e grandes. Disse grandes? Gigantes! E o teu sorriso era também enorme, para condizer com esse verde imenso que pintava o meu mundo sempre que olhavas na minha direcção.
Parecias um puto. Inclinavas a cabeça com um ar maroto sempre que te estendias no sofá e com a preguiça estampada na cara descalçavas-te abanando somente os pés. Atiravas – ainda não sei se de propósito ou não – um sapato para oeste e outro para o sul do tapete.
Colocavas a língua de fora e tentavas tocar na ponta do nariz, fingindo que tinhas dúvidas se seria possível tal façanha. Pelo cantinho do olho direito espreitavas para ver se o meu sorriso aparecia cá fora, sem dares o braço a torcer deste teu verdadeiro intuito. E eu – sem dar o braço a torcer também – não me ria… pelo cantinho do olho direito não vias o sorriso que espreitava cá dentro.
Franzias o sobrolho indicando que a bola estava no meu lado do campo, enquanto avançava lentamente para o centro da sala acendendo as velas e apagando a luz.
Sentias a chama do pavio de cada vela a acordar diferentes sombras que nos observavam espalhadas em nosso redor. Fixava a tua sombra e sentia que sentias.
Estendia-me no tapete com a minha mão esquerda a fazer companhia ao teu sapato do oeste e os meus cabelos a aquecerem o sapato atirado para sul. Movimentava a cabeça – de propósito, sim – deixando o meu pescoço de olhos em ti e o vidro do móvel a olhar para mim.
Com o dedo indicador apontavas para a imagem reflectida no vidro e percorrias milímetro a milímetro todo o meu corpo. De vez em quando fechavas os olhos para me sentires melhor e eu sussurrava para o vidro o teu nome, mexendo os lábios sem deixar sair som.
Ficávamos ali estendidos – tu no sofá, eu no tapete – num ritual sem mantra, realizando um filme mudo, envolvido numa banda sonora surda. Porque todos os teus gestos e pensamentos tinham a sua própria sonoridade mesmo quando lidos em silêncio.
«Loucos» murmuravam as sombras. Tristes das sombras… tão sérias, tão contidas, demasiado racionais. Não sabiam que a mórbida normalidade não alcançava a essência do sentimento.
Guardavas os teus olhos verdes e gigantes debaixo das tuas pálpebras, escondia-me debaixo de ti e deslizávamos para o fundo dos sonhos.
…as velas apagaram-se e o mundo ficou às escuras!...
Fecho os olhos rapidamente, escondo-me debaixo dos lençóis e deslizo para o fundo da cama.
Ouço o murmúrio das sombras: «foi um sonho parva, só um sonho!» E eu respondo com um sorriso enorme, para condizer com o verde imenso que pinta o meu mundo agora que olhas na minha direcção.
F.
7 de fevereiro, 2004
OS COMPLICADOS

Há alguns dias recebi esta imagem no meu mail, imagem esta que de certeza provocou muitos sorrisos na cara de muitos homens.
Não vou negar que as mulheres em geral demoram mais tempo dentro de um centro comercial, não vou negar que muitas vezes comprámos coisas que realmente não tem uma necessidade urgente. De um modo geral as mulheres gostam de mais de ir às compras do que os homens e ponto. Isso não nos torna mais complicadas, é simplesmente uma questão de gosto e que eu saiba gostos não se discutem.
Os homens até são capazes de comprar o bendito par de calças em seis minutos, o que a imagem não explica é que se por acaso não houver o tal modelo pretendido, sim aquele par igual a todos os outros que lá estão no armário, o mais certo é o comprador sair tristemente da loja de mãos a abanar. Isto porque para ele é muito complicado sequer se dar ao trabalho de experimentar outras. Que horror! O comprador não quer correr o risco de demorar mais tempo do que o pretendido e se transformar aos olhos dos amigos num ser “abichanado” que vai às compras. Se isto não é ser complicado então peço imensa desculpa, mas o tempo de sermos nós, por si só, as complicadas já lá vai.
Parafraseando a minha amiga Pata Direita isso é coisa do tempo das nossa avós, mas isso é outra história que certamente ela um dia vai aqui explicar bem melhor do que eu.
PATA ESQUERDA.
5 de fevereiro, 2004
POEMA AZUL
Não te conheço, mas sei quem és
Duas forças… um movimento permeável
Eu com a pergunta, tu com a resposta rápida
Um revirar de olhos e uma ironia ácida
Dois vultos… um ladrão de lençóis
Porta trancada, janela sempre aberta
Mordo a lua e às estrelas dou um beijo
Sinto-te, mas não te vejo
Mergulho no escuro, temes o dia
Não te agarro, tenho o teu cheiro
Duas corujas… um cavalheiro em extinção
Uma noite cansada e um dia anão
Ouço-te, mas não te alcanço
Tu com o olhar, eu com o suspiro
Uma gargalhada e um gesto contido
Duas raízes… um fruto proibido
És irreal… eu fui ilusão
Esboço um sorriso… cai uma lágrima
Rasgo a membrana entre dois mundos
Espero-te na fábrica de sonhos
Abro os olhos… Sorrio, rio…
Salto, grito e giro, giro, giro…
Páro… Olho, olho e choro…
E simplesmente fecho os olhos…
F.
PATA DIREITA
4 de fevereiro, 2004
A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER
“ O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se aplica por uma única mulher). “
MILAN KUNDERA
PATA DIREITA
3 de fevereiro, 2004
MADRUGADA
É tarde, muito tarde. Lá fora o tempo está propício a todo o tipo de criaturas saídas de um filme de terror, isto é, está um nevoeiro do caraças. Não se consegue ver um palmo à frente do nariz. A mim só me apetece beber um chocolate bem quente, agarrar um cobertor e ficar a olhar a sombras incertas, tentando descodificar o que são ou o que gostaria que fossem. Ficar assim quieta a imaginar todo o tipo de criaturas saídas do meu imaginário infantil, quando ainda acreditava em fadas e duendes e que do outro lado de um arco-íris estaria um pote com moedas de ouro.
Pode parecer estranho mas é o que realmente me apetece fazer, o meu lado “Peter Pan” hoje deu uma escapadela lá da “Terra do Nunca” e veio mostrar que ainda existe e que não faz mal a ninguém. Muito pelo contrário, um pouco de imaginação só traz cor às nossas vidas por vezes cinzentas só porque foi esse o lápis com que as resolvemos pintar.
Assim sendo, fico por aqui. O meu chocolate está pronto, o nevoeiro continua lá fora e por isso devo ir mas não sem antes vos desejar um bom dia.
PATA ESQUERDA
2 de fevereiro, 2004
QUANDO FOR AO SUPERMERCADO COMPRO UMA QUINTA-FEIRA
Hoje é SEGUNDA, possivelmente o dia mais desapreciado da semana. Se estivesse à venda no supermercado, era o mais barato e no entanto tinha um stock a transbordar. (ninguém o quer comprar).
Os DOMINGOS acusam em alguns consumidores um conjunto de sintomas; ausência de vontade para fazer seja o que for, preferência pela televisão/sofá/cama, sofrimento antecipado pela certeza do dia que se segue. Não tenho este “síndrome de DOMINGO”, no entanto conheço casos bem graves!
As TERÇAS sabem a nada. Seriam compradas pelo seu preço ser acessível, são dias de média qualidade. Por um lado trazem ainda o cheiro das SEGUNDAS, por outro lembram o sabor das QUARTAS. A TERÇA é assim. Passa-se assim. E o que está no meio se por vezes é virtude, por outras resume-se a um impasse.
A partir daqui são os favoritos. O meu – desconfio que da maioria – é a SEXTA, gosto da QUARTA e ainda mais da QUINTA. As QUINTAS têm o seu requinte. Não são de luxo (como as SEXTAS), são clássicos que perduram.
Comprava de vez em quando uma QUARTA. Sabe bem, sem efeitos secundários registados. É um daqueles dias de que simplesmente… se gosta. Talvez porque as chatices são no início da semana e a partir daqui os dias perecem andar cada vez mais rápido. Quando se mete a QUARTA começa-se a sentir aceleração e claro que a QUINTA se mete logo a seguir.
Desconfio que durante os saldos o SÁBADO fosse atingido. É o dia de todos e de tudo. O seu preço poderia ser inflacionado que não deixaria de ser vendido. Está catalogado como um bem necessário.
Alta qualidade é a definição das SEXTAS. Acaba por ser o dia maior de todos – ilusoriamente, claro está – alia-se o trabalho à diversão/lazer/”relax”! O próprio trabalho torna-se diferente só porque é SEXTA! Mesmo rebentados da semana, a saída pode durar até madrugada, tudo porque a SEXTA tem a sua própria – inexplicável até – energia. Faz-nos sonhar com o SÁBADO (sem o sofrimento de antecipação dos DOMINGOS).
As SEXTAS devem desaparecer a uma velocidade estonteante tal a sua procura., Como sou “sempre da hora” quando lá chegar encontro a prateleira vazia. Não faz mal. Eu gosto da QUARTA e ainda mais da QUINTA.
PATA DIREITA
1 de fevereiro, 2004
O DRAGÃO VISITOU O LEÃO
Acho curioso o ar de contentamento exibido pelos sportinguistas no dia de hoje. Pelo que percebi foi um empate e não uma vitória! Dizem que é por terem dominado o jogo… engraçado, da última vez que percebia alguma coisa de futebol "dominar" o jogo, não fazia com que se ganhasse campeonatos!
PATA DIREITA
P.S – Claro que os benfiquistas também andam sorridentes, mas esses também hão-de sorrir com mais o quê?
30 de janeiro, 2004
ELES "ANDEM AÍ", SÃO 5 E ANDAM AOS PARES!
Íamos no metro (ambas as PATAS) e ao passar pela estação de ******* (o local será omitido, pela preservação – se é que é possível – da gaja em questão) quando nos lembramos que possivelmente conhecemos uma vampira. Uma vampira? Nem mais. Quer dizer, conhecemos uma gaja que nos conhece e que conheceu a outra gaja, então quis que nós a conhecêssemos, embora finjamos que não a conhecemos. Simples!
PATA ESQUERDA: F***** sempre que passo aqui lembro-me daquela gaja!
PATA DIREITA: A vampira?
PATA ESQUERDA: Nem mais! Ela parece mesmo uma! Aquelas olheiras cavadas debaixo dos olhos…
PATA DIREITA: O cabelo negro escorrido da oleosidade…
PATA ESQUERDA: Os dentes amarelados, tortos e afiados…
PATA DIREITA: A cor pálida e esverdeada! A gaja deve ter sido abandonada pela família Adams!
PATA ESQUERDA: Mas está a difamar a classe dela. Veste-se muitas vezes de negro é certo! Mas por vezes parece um palhaço. Lembras-te do dia da saia preta pelos joelhos?
PATA DIREITA: Que ficava realmente pelos tornozelos, é uma “meia leca”! Deve ser esborrachada nas horas de ponta do metro… E levava as meias roubadas ao Wally, aquelas com as riscas vermelhas e brancas!
PATA ESQUERDA: Com os ténis laranja choque, tamanho xxxs! Possivelmente comprados na Chico!
(Não estávamos ainda certas se a “pessoa” em questão teria mesmo uma origem relacionada com a Pensilvânia)
PATA ESQUERDA: Achas que ela consegue estar em frente ao alho?
PATA DIREITA: Isso não sei, mas cheira a alho!
PATA ESQUERDA: E consegue-se ver ao espelho?
PATA DIREITA: Se conseguisse não saía à rua assim!!!
Se a virem não se assustem, quer dizer isso talvez é pedir muito!
E ainda dizem que vampiros não existem! Isso é quem não conhece ninguém como esta gaja!
E só não acredito em homenzinhos verdes com antenas e um olho na testa porque ainda não vi nenhum… ainda bem que ela ainda não nos apresentou um irmão!
PATA DIREITA
29 de janeiro, 2004
CHARLOT E A TEORIA DA VIDA
"A coisa mais injusta da vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás para a frente. Nós deveríamos MORRER primeiro, livrarmo-nos logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado para fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar.
Então TRABALHAR 40 anos até ficar novo, o bastante para poder aproveitar a reforma. Aí CURTIR tudo, beber bastante, fazer festas e preparar-se para a FACULDADE.
Depois ir para o colégio, ter várias namoradas, virar CRIANÇA, não ter nenhuma responsabilidade, tornar-se um bebezinho de COLO, voltar para o ÚTERO da mãe, passando os últimos nove meses de vida flutuando...
E termina tudo com um óptimo ORGASMO! Não seria perfeito?"
- CHARLIE CHAPLIN
PATA DIREITA
28 de janeiro, 2004
CONTINUAÇÃO DA SAGA DA TIGELA DO BÓBI
Antes de sair, não podia deixar de partilhar que a Dona Alzira anda em pânico: "Bóbiiiii, Bóbiiii... porque é que não comes?"
PATA DIREITA
"POR CUBA LIBRE!"

Podia aconselhar uma música, um livro, um filme, um lugar, um blog... whatever! Mas não. Hoje como temos (Pata Direita e Pata Esquerda) encontro marcado com a noite, aconselhamos a nossa bebida favorita: CUBA LIBRE!
Como muitos não podem/querem sair, o conselho de hoje é este... se as patas não vão à bebida a bebida vai às patas! (Ora bem, sempre desconfiei que aquela "citação bíblica" do tal Maomé serviria para alguma coisa!)
Passemos à prática! Ratos prontos e a funcionar? Comecem a clicar no copy & paste:
1) Preparação da bebida
- 1 Dose de rum
- Coca-cola
- 1 Rodela de limão
Modo de Preparar:
Servir em copo alto, com gelo. (se utilizarem copos baixotes, não faz lembrar muito uma noitada pois não?)
2) Vestuário
Aqui é indiferente, em casa ninguém vos vai "fazer a folha" mesmo... logo, podem manter esse pijama
3) Música
Aos berros!!! (Aqui não é negociável, ou já estiveram em alguma discoteca em que se conseguiam ouvir uns aos outros?)
Nota: convém forrar as paredes com colchões, embora eu prefira a visita da polícia (vantagem: dá tempo para curtir e não ter trabalho a forrar coisíssima nenhuma; desvantagem: explicar porque estamos bêbados, sozinhos e de pijama a receber polícias em casa)
4) Temperatura
Podem simplesmente apagar a luz do quarto e trancarem-se lá dentro com o aquecimento no máximo. É eficaz, não me ocorrendo uma melhor imitação do "calor humano" de uma noite apinhada de patas.
5) Iluminação
Lanternas espalhadas pelo quarto projectando a luz em várias direcções. Para obterem várias cores, podem utilizar papéis de rebuçados (verdes, vermelhos, amarelos...) para cobrir o foco. O efeito é completamente rasca e piroso, mas tal como já mencionei ninguém está lá para ver.
6) Pessoas
Aqui é que não estamos muito favorecidos, verdade? Fechados em casa não nos cai ninguém ao colo. Sempre podem convidar o moço/moça que vos entregar a encomenda da Telepizza. Ou então aproveitem aqui o "PATAS LAMACENTAS". Por um dia (UM DIA!), apoio algum par de patas retido em casa que coloque um comentário em busca de companhia.
Tchim, tchim! CARPE NOCTE!
PATA DIREITA
P.S – Esta noite o meu primeiro brinde será em honra ao "PATAS LAMACENTAS" e ao seu segundo dia de vida!
27 de janeiro, 2004
PRÓ(B)LOGO
O início do verbo blogar: “ Eu blogo, tu blogas, ele bloga, NÓS BLOGAMOS!!!
Porquê?
Porque hoje choveu. Porque Lisboa só tem buracos. Porque o dia resumiu-se a meter as patas nas poças!
Em defesa das nossas patas inaugura-se o Patas Lamacentas! (O blog onde de tudo se escreve com esperanças de que alguma coisa se leia…)
P.S - Já partimos a garrafa de champanhe no monitor e agora chapinham as patas (um pouco menos lamacentas) na água quentinha.
P.P.S – Mal sabe a vizinha Alzira, que a tigela do Bóbi dá um bom alguidar improvisado.
